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Canetas de GLP‑1 e o aumento do risco de neuropatia óptica: o que dizem os estudos

Uma nova investigação da Anvisa revelou que o uso de medicamentos à base de GLP‑1 pode estar associado ao surgimento de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, uma condição que afeta a visão e tem sido observada em pacientes de todo o Brasil nos últimos dois anos. O alerta surge após a notificação de 13 casos suspeitos no país, levantando dúvidas sobre a segurança desses fármacos amplamente prescritos para diabetes e obesidade.

Entendendo a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica

Essa doença, apesar do nome complexo, pode ser explicada de forma simples: ocorre uma queda súbita no fluxo sanguíneo que alimenta a parte inicial do nervo óptico, logo na saída do olho. Quando essa irrigação é interrompida, parte da visão desaparece de maneira indolor, geralmente percebida ao acordar.

Não há tratamento que garanta a reversão completa da lesão, o que faz com que muitos pacientes vivam com sequelas permanentes. Por isso, a prevenção e a detecção precoce são fundamentais para minimizar o impacto na qualidade de vida.

A forma “não arterítica” da neuropatia é a mais comum e não está relacionada à inflamação das artérias. Ela afeta sobretudo pessoas acima dos 50 anos e apresenta fatores de risco bem definidos, que incluem:

  • Diabetes mellitus
  • Hipertensão arterial
  • Colesterol elevado
  • Apneia do sono
  • Disco óptico pequeno e apertado

Estudos populacionais clássicos estimam que entre 2 e 10 pessoas em cada 100 mil adultos com mais de 50 anos desenvolvem a condição por ano. Em uma cidade com 100 mil habitantes nessa faixa etária, isso equivale a poucos casos ao longo de um ano inteiro.

O crescimento do uso de agonistas de GLP‑1 no Brasil

Os agonistas de GLP‑1, comercializados em canetas semanais como Ozempic e Mounjaro, ganharam enorme popularidade nos últimos cinco anos. A promessa de controle glicêmico eficaz aliado à perda de peso atraiu milhões de pacientes, tanto com diabetes tipo 2 quanto com obesidade.

Segundo a fabricante da semaglutida, mais de 45 milhões de pessoas já utilizam esses fármacos ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, cerca de um em cada oito adultos já recorreu a algum medicamento da classe. No Brasil, a consultoria Euromonitor aponta que 5,5% da população adulta está em tratamento com GLP‑1, acima da média global.

Até meados de 2025, as canetas eram vendidas livremente nas farmácias, sem necessidade de receita médica. Essa facilidade de acesso contribuiu para o uso desassistido, muitas vezes sem acompanhamento oftalmológico adequado.

Para colocar esses números em perspectiva, considere a seguinte comparação:

  • População adulta brasileira (35 milhões) × 5,5% = aproximadamente 1,9 milhão de usuários de GLP‑1.
  • Incidência anual da neuropatia em adultos >50 anos: 2‑10 casos por 100 mil.
  • Se aplicarmos a taxa máxima (10/100 mil) ao grupo de usuários, poderíamos esperar até 190 casos por ano, mesmo sem relação causal.

Esses cálculos demonstram como uma doença rara pode aparecer em números visíveis quando a população exposta é tão grande.

O que apontam os estudos: associação ou coincidência?

Em 2024, pesquisadores da Universidade Harvard publicaram um estudo de um único centro oftalmológico que encontrou uma frequência maior de neuropatia óptica entre pacientes que usavam semaglutida. O achado gerou preocupação e estimulou novas investigações.

Posteriormente, outras pesquisas foram realizadas com amostras maiores e metodologias distintas. Alguns trabalhos confirmaram uma associação estatística, enquanto outros não encontraram diferença significativa entre usuários e não‑usuários.

Uma revisão sistemática publicada em maio de 2026 na revista PLOS Medicine reuniu dados de registros populacionais de pessoas com diabetes e calculou que o risco relativo de desenvolver a neuropatia era cerca de duas vezes maior entre quem usava semaglutida. Traduzindo para risco absoluto, isso corresponde a aproximadamente um caso adicional a cada 7 mil pacientes tratados por ano.

Entretanto, os ensaios clínicos controlados – o padrão‑ouro da medicina baseada em evidências – não corroboraram esse aumento. Uma meta‑análise publicada na revista Ophthalmology, que agregou oito ensaios com mais de 31 mil participantes, registrou apenas cinco casos de neuropatia entre os que receberam semaglutida, contra um caso no grupo placebo, diferença que não alcançou significância estatística.

Esses resultados conflitantes sugerem que, embora exista um sinal de alerta, a relação causal ainda não está comprovada. Fatores como predisposição individual, comorbidades e uso concomitante de outros medicamentos podem influenciar o surgimento da doença.

Especialistas recomendam que pacientes que iniciam tratamento com GLP‑1 mantenham acompanhamento oftalmológico regular, principalmente se já apresentarem algum dos fatores de risco listados anteriormente. A detecção precoce de alterações no campo visual pode permitir intervenções que preservem a visão.

Além disso, a Anvisa continua a coletar e analisar as notificações de casos suspeitos, com a intenção de atualizar as bulas dos medicamentos caso seja necessária alguma restrição ou alerta adicional.

Em resumo, a situação exige cautela, mas não pânico. A maioria dos usuários de GLP‑1 não desenvolverá neuropatia óptica, e os benefícios no controle glicêmico e na redução de peso permanecem relevantes. O diálogo entre endocrinologistas, oftalmologistas e pacientes é essencial para equilibrar riscos e benefícios.

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