Uma pesquisa realizada entre 6 e 27 de agosto do ano passado revelou que 95% dos brasileiros com depressão ainda sentem efeitos negativos dos sintomas, mesmo após tratamento com antidepressivos. O levantamento, que contou com 850 participantes de sete países, trouxe à tona a gravidade dos sintomas residuais. Os dados foram analisados pela organização sem fins lucrativos Mental Health America e divulgados exclusivamente pela VEJA.
Impacto dos sintomas residuais no Brasil
Os brasileiros entrevistados apontaram que os sintomas persistentes afetam principalmente a vida social, com 70% relatando dificuldades nas amizades existentes. O interesse por hobbies ou outras atividades também foi comprometido, segundo 53% dos respondentes. Além disso, 38% disseram ter dificuldade para formar novas relações afetivas ou de amizade.
Quando o foco recai sobre o ambiente de trabalho, 94% dos pacientes afirmam que os sintomas influenciam, ao menos ocasionalmente, seu desempenho. Entre os prejuízos citados estão a redução da produtividade, a queda de foco e o aumento de faltas por questões de saúde ou pessoais. Essa situação evidencia que a depressão vai além da tristeza, atingindo também a energia e o engajamento nas tarefas diárias.
Comparação internacional dos índices
O estudo comparou o Brasil com Canadá, Alemanha, Estados Unidos, Espanha, Itália e China. Enquanto no Brasil o índice de impacto negativo foi de 95%, no Canadá e na Alemanha ficou em 68%. Nos Estados Unidos o número chegou a 74%, na Espanha 71%, na Itália 77% e na China 62%.
Todos os participantes estavam em uso de antidepressivo oral no momento da pesquisa, o que demonstra que a medicação, embora essencial, não elimina completamente os sintomas residuais. A Johnson & Johnson, responsável pela coleta dos dados, destacou que a campanha global visa chamar a atenção para esses efeitos persistentes e incentivar a busca por intervenções complementares.
- Brasil: 95% de impacto negativo moderado ou significativo
- Estados Unidos: 74%
- Itália: 77%
- Espanha: 71%
- Canadá e Alemanha: 68%
- China: 62%
Desafios na comunicação entre pacientes e profissionais
Um dos achados mais críticos foi a falha de comunicação entre pacientes e profissionais de saúde. No Brasil, 93% dos pacientes já relataram os sintomas residuais a um profissional, mas 72% não ficaram satisfeitos com as respostas recebidas.
Do ponto de vista dos profissionais, 92% reconhecem que os pacientes têm dificuldade em explicar o que não está funcionando no tratamento. Essa lacuna gera um ciclo de insatisfação e pode atrasar a adoção de estratégias terapêuticas mais eficazes.
Entre os pacientes que não discutiram seus sintomas residuais com o médico, os principais motivos incluíram:
- Medo de ser rotulado como “não melhorado”
- Falta de tempo durante a consulta
- Desconfiança de que o profissional entenderia a gravidade dos sintomas
- Crença de que os sintomas são “normais” após iniciar o tratamento
O psiquiatra Luiz Eduardo Xavier, representante da Johnson & Johnson, alertou para um “erro estrutural” na avaliação dos pacientes. Ele enfatizou que a recuperação funcional só ocorre quando a pessoa volta a sentir prazer nas atividades que apreciava, a socializar e a desempenhar bem suas funções laborais.
Segundo Xavier, a simples redução de pensamentos de culpa ou tristeza não garante qualidade de vida plena. A recuperação funcional envolve o retorno ao engajamento energético, permitindo que o indivíduo execute tarefas cotidianas sem sentir que tudo é excessivamente difícil.
Além dos 850 pacientes, o estudo também contou com 800 profissionais de saúde, incluindo psiquiatras, médicos de atenção primária e enfermeiros especializados. Desses, 100 eram brasileiros, o que ajudou a mapear as particularidades do contexto nacional.
Os resultados sugerem que, para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, é necessário investir em estratégias de comunicação mais claras, treinamentos para profissionais e abordagens terapêuticas que vão além da medicação, como psicoterapia, intervenções de estilo de vida e apoio social.








