Um estudo de vida real revelou que pacientes que abandonaram as injeções para adotar o comprimido diário Wegovy continuaram a perder peso de forma consistente. Os dados foram apresentados no congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, realizado em 30 de setembro em Milão. A pesquisa analisou o desempenho da semaglutida oral em comparação com terapias injetáveis já estabelecidas.
Contexto e metodologia do estudo
O levantamento envolveu 194 participantes que haviam sido tratados previamente com injeções de Wegovy ou Zepbound, da Eli Lilly. Após a transição para a formulação oral, os pacientes foram acompanhados por três meses, período em que foram coletados relatos de peso e avaliações clínicas.
Os pesquisadores colaboraram com a empresa norte‑americana de telessaúde Ro, que facilitou a coleta de informações diretamente dos pacientes. Embora os dados reflitam a prática clínica real, eles dependem de autorrelatos e, portanto, não substituem ensaios randomizados controlados.
Para garantir a comparabilidade, foram excluídos pacientes que interromperam o tratamento ou que apresentaram condições médicas que pudessem interferir na perda de peso. O peso inicial médio da amostra foi de 100,5 kg, com a maioria dos indivíduos classificados como clinicamente obesos.
Principais resultados obtidos
Em média, os participantes perderam 4,1 % do peso corporal ao longo dos três meses de uso do comprimido, o que corresponde a cerca de 4,0 kg. Essa redução foi acompanhada por uma queda significativa na taxa de obesidade clínica, que passou de 87,1 % para 65,5 %.
Quase 41 % dos pacientes alcançaram a marca de 5 % de perda de peso, um critério frequentemente usado para definir resposta clínica relevante. Esses números superaram as expectativas iniciais sobre a aderência ao tratamento oral.
O estudo também destacou que a maioria dos participantes relatou maior conveniência e satisfação ao substituir as injeções diárias pelo comprimido. Essa preferência pode influenciar a adesão a longo prazo e, consequentemente, os resultados de saúde.
- Perda média de peso: 4,0 kg
- Redução percentual do peso: 4,1 %
- Queda na obesidade clínica: 21,6 pontos percentuais
- 41 % dos pacientes perderam ≥5 % do peso
- Maior aceitação do formato oral
Implicações para o mercado farmacêutico
Os resultados chegam em um momento crítico para a Novo Nordisk, que viu suas ações recuarem após a ascensão da Eli Lilly no segmento de medicamentos para obesidade. O comprimido oral representa agora cerca de um terço das prescrições nos Estados Unidos, consolidando a presença da empresa no mercado.
Segundo o presidente‑executivo da Novo, Mike Doustdar, os tratamentos orais têm potencial para capturar até metade do mercado global de medicamentos contra a obesidade, estimado em US$ 100 bilhões anuais até o final da década.
A empresa já lançou o comprimido em diversos países, incluindo EUA, Reino Unido, Alemanha e Emirados Árabes Unidos, com planos de expansão para outras regiões nos próximos trimestres.
Analistas apontam que a combinação de eficácia comprovada e conveniência de uso pode mudar o panorama competitivo, pressionando a Eli Lilly a acelerar o desenvolvimento de suas próprias formulações orais.
Desafios e considerações futuras
Apesar dos resultados promissores, especialistas alertam que a dependência de autorrelatos pode limitar a robustez das conclusões. Estudos randomizados ainda são necessários para confirmar a causalidade entre a forma oral e a maior perda de peso.
Além disso, a Anvisa continua investigando relatos de perda de visão associados a canetas de medicamentos para emagrecimento, o que pode impactar a percepção pública sobre a segurança dos tratamentos injetáveis.
O acompanhamento a longo prazo dos pacientes que migraram para a semaglutida oral será crucial para entender a sustentabilidade da perda de peso e a incidência de eventuais efeitos adversos.
Em síntese, a transição de injeções para comprimidos parece oferecer benefícios significativos em termos de perda de peso e adesão ao tratamento, mas a comunidade médica aguarda evidências mais aprofundadas antes de fazer recomendações definitivas.








