Douglas Stewart Carter, que passou 41 anos no corredor da morte nos Estados Unidos, foi solto sob fiança na segunda‑feira, 28 de junho, após exames de DNA provarem que ele não tinha ligação com o crime que o condenou. A libertação ocorreu em Utah, onde o assassinato de Eva Olesen foi cometido em 1985, e marcou o fim de uma das maiores controvérsias judiciais da história recente do estado.
O crime que desencadeou a condenação
Em fevereiro de 1985, Eva Olesen, tia de um chefe de polícia local, foi brutalmente assassinada em sua residência em Provo, Utah. Segundo relatos policiais, a vítima sofreu múltiplas facadas antes de ser alvejada na parte de trás da cabeça, um modus operandi que chocou a comunidade e gerou intensa pressão para encontrar o responsável.
Na época, a polícia rapidamente focou em Douglas Carter, um homem negro originário de Chicago que morava com a mãe em Utah. A investigação apontou para um possível roubo frustrado como motivação, embora não houvesse evidências físicas que ligassem Carter ao local.
Condenação baseada em confissão e testemunhos controversos
Carter foi detido após fugir de Utah ao acreditar estar sendo investigado por outro delito. Ele foi localizado em Nashville, Tennessee, onde, durante o interrogatório, assinou uma confissão que mais tarde alegou ter sido obtida mediante coerção e ameaças.
O júri o condenou à morte baseando‑se principalmente na confissão e nos depoimentos de duas testemunhas que afirmaram que Carter se gabou do assassinato. Não foram apresentadas provas de DNA, impressões digitais ou vestígios de sangue que o vinculassem ao crime.
Além disso, testemunhas posteriores relataram que foram instruídas a mentir em tribunal, recebendo subornos em dinheiro e presentes, além de ameaças de deportação caso recusassem depor contra Carter.
Reviravolta: o DNA exclui o condenado
Em 2024, uma nova análise de DNA realizada por laboratórios forenses independentes comparou amostras encontradas na maçaneta da porta da casa da vítima e no cabo da faca com o material genético de Carter. Os resultados demonstraram que não havia correspondência alguma, excluindo o homem da lista de suspeitos.
Com base nesses resultados, a Suprema Corte de Utah determinou a necessidade de um novo julgamento, citando má conduta dos investigadores, incluindo a suposta supressão de provas que apontavam para o marido da vítima, Orla Olesen, já falecido em 2009.
Um juiz estadual concedeu fiança a Carter, permitindo sua liberdade sob monitoramento eletrônico por GPS, apesar das objeções veementes da família de Eva Olesen, que ainda busca respostas sobre o verdadeiro autor do crime.
Impactos e lições para o sistema judicial
O caso reacende o debate nacional sobre a confiabilidade das confissões obtidas sob pressão e a necessidade de revisões forenses regulares em processos de pena capital. Especialistas apontam que a falta de evidências físicas robustas, aliada a testemunhos manipulados, pode levar a condenações injustas que duram décadas.
Advogados de defesa enfatizam que a revisão de casos antigos, especialmente aqueles que dependem exclusivamente de depoimentos e confissões, deve ser institucionalizada para prevenir novas tragédias semelhantes.
Organizações de direitos civis celebram a libertação de Carter como um marco na luta contra o racismo institucionalizado no sistema penal dos Estados Unidos, ressaltando que a maioria das vítimas de erros judiciais são pessoas negras ou de minorias étnicas.
- 1985 – Assassinato de Eva Olesen em Provo, Utah.
- 1985 – Prisão e confissão controversa de Douglas Carter.
- 1990 – Sentença de morte aplicada ao réu.
- 2011 – Testemunhas admitem ter sido subornadas e ameaçadas.
- 2024 – Exame de DNA exclui Carter e determina novo julgamento.
Enquanto Carter inicia uma nova fase de sua vida, sob supervisão eletrônica, o caso deixa um legado de reflexão profunda sobre falhas processuais, a importância da ciência forense e a urgência de reformas que garantam justiça efetiva para todos.








