O economista francês Thomas Piketty afirmou, em entrevista à BBC News Brasil, que adotar um nacionalismo ao estilo de Donald Trump seria prejudicial ao Brasil e ao resto do planeta. A declaração foi feita em junho de 2024, poucos dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, e refletiu as conclusões do Relatório de Justiça Global apresentado no G20, no Rio de Janeiro.
O alerta de Piketty sobre as distopias contemporâneas
Piketty descreve o momento atual como repleto de “distopias”, nas quais tecnobilionários e tecnonacionalistas criam visões de futuro que ignoram necessidades básicas como desenvolvimento sustentável e justiça social. Segundo ele, a “visão trumpista” – marcada por políticas protecionistas e retóricas de superioridade nacional – não resolve os problemas ambientais nem as desigualdades crescentes.
O economista ainda aponta que a corrida por data centers em todos os cantos do planeta, inclusive em Marte, e a intensificação de conflitos por recursos fósseis são sinais de que o modelo atual está se tornando insustentável. Ele enfatiza que a comunidade internacional precisa discutir alternativas antes que essas tendências se consolidem.
Propostas do Relatório de Justiça Global
O Relatório de Justiça Global, elaborado por cerca de cinquenta especialistas liderados por Piketty no World Inequality Lab, apresenta um conjunto ambicioso de medidas para reequilibrar a distribuição de riqueza mundial até o final do século. As propostas são baseadas em análises de dados econômicos e sociais de dezenas de países nos últimos anos.
Entre as recomendações mais ousadas, destacam‑se:
- Criação de uma moeda única internacional administrada pela ONU, substituindo gradualmente o dólar como reserva global.
- Estabelecimento de um imposto global sobre a riqueza, focado nas fortunas dos bilionários.
- Meta de elevar a renda per capita global para 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil) até 2100.
- Redução média das horas de trabalho para menos da metade da jornada atual, com transferência de mão‑de‑obra da produção de alimentos para os setores de educação e saúde.
Essas ações visam não apenas reduzir a desigualdade, mas também promover um modelo econômico mais resiliente diante das crises climáticas e tecnológicas.
O papel do Brasil nas negociações internacionais
No contexto do G20 de 2024, realizado no Rio de Janeiro, o Brasil conseguiu inserir, de forma inédita, uma menção à tributação dos super‑ricos no comunicado final da cúpula. Essa conquista foi significativa, considerando a forte oposição da Argentina, que defendia a manutenção do status quo.
Desde então, a diplomacia brasileira tem sido protagonista nas discussões sobre um sistema tributário internacional, apresentando projetos de lei e apoiando coalizões que defendem o imposto global sobre a riqueza. A próxima reunião do grupo, prevista para novembro‑dezembro de 2024 no Quênia, será um teste crucial para a consolidação dessas propostas.
Para Piketty, o Brasil tem a oportunidade de se posicionar como líder de países emergentes ao defender políticas que combatam a concentração de renda e fortaleçam a cooperação multilateral.
Desafios e perspectivas para o futuro
Embora as ideias apresentadas pareçam revolucionárias, elas enfrentam resistência de setores que temem perder autonomia econômica ou sofrer impactos negativos em seus mercados financeiros. A agenda tecnonacionalista, segundo o economista, tem pouca chance de se sustentar a longo prazo se não oferecer soluções concretas para o desenvolvimento sustentável.
O futuro próximo será marcado por eleições importantes, como a dos Estados Unidos em novembro de 2024, e o segundo turno da presidência brasileira em outubro. Os resultados desses pleitos podem influenciar diretamente a adoção ou o bloqueio das propostas do Relatório de Justiça Global.
Em síntese, Piketty conclui que a humanidade precisa abandonar a lógica do “nacionalismo de Trump” e abraçar uma visão colaborativa, baseada em políticas fiscais justas, redução da jornada de trabalho e investimentos em setores essenciais como saúde e educação. Só assim será possível evitar crises políticas semelhantes às que desencadearam a Revolução Francesa no século XVIII.








