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Anvisa investiga possíveis vínculos entre canetas de GLP‑1 e casos de perda súbita de visão

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) iniciou, em 2024, a apuração de 13 notificações de suspeita de Noiana em pacientes que utilizam canetas emagrecedoras. O foco da investigação está nos eventos de perda súbita e permanente da visão que foram registrados em diferentes regiões do Brasil. Até o momento, as autoridades ainda não confirmaram relação causal entre os medicamentos e a doença.

Contexto da investigação da Anvisa

A Anvisa recebeu relatos de pacientes que apresentaram neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noiana) após o uso de canetas contendo agonistas de GLP‑1. As notificações foram distribuídas entre usuários de diferentes marcas, o que motivou a abertura de um processo de avaliação detalhada.

Das 13 notificações, cinco envolveram o uso de Ozempic, três Wegovy, duas Wegovy FlexTouch, duas Rybelsus e uma Mounjaro. Os quatro primeiros medicamentos são produzidos pela Novo Nordisk e têm a semaglutida como princípio ativo, enquanto o Mounjaro, da Eli Lilly, contém tirzepatida.

  • Ozempic – semaglutida
  • Wegovy – semaglutida
  • Wegovy FlexTouch – semaglutida
  • Rybelsus – semaglutida
  • Mounjaro – tirzepatida

A Novo Nordisk destacou, em nota oficial, que a segurança dos pacientes é prioridade e que acompanha continuamente os relatos de eventos adversos. A empresa reforça que a semaglutida possui um perfil de segurança respaldado por extensos estudos clínicos e uso global, sem evidência de causalidade direta com a Noiana.

Já a Eli Lilly informou que monitora, avalia e reporta ativamente às autoridades regulatórias todas as informações de segurança relacionadas aos seus produtos. A empresa orienta que qualquer efeito colateral suspeito deve ser discutido imediatamente com um médico ou profissional de saúde.

De acordo com a Anvisa, as notificações de Noiana não implicam, por si só, que os medicamentos sejam responsáveis pelos casos. A agência ressalta que a avaliação depende da qualidade e completude das informações clínicas, incluindo diagnóstico confirmado, relação temporal, comorbidades e uso de outros fármacos.

Em junho de 2025, a Anvisa emitiu um alerta sobre a Noiana como evento adverso muito raro associado à semaglutida, exigindo a inclusão desse risco nas bulas dos medicamentos que contêm o princípio ativo. A recomendação oficial é que pacientes procurem atendimento médico imediato ao perceber perda súbita ou piora rápida da visão.

A agência também orienta os profissionais de saúde a investigarem prontamente qualquer queixa visual em usuários de agonistas de GLP‑1, registrando detalhadamente a história clínica e os medicamentos em uso.

O que é a Noiana e como ela afeta a visão

A Noiana, ou neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, é um evento adverso raro que compromete o nervo óptico devido à redução do fluxo sanguíneo. Essa diminuição de irrigação provoca falta de oxigênio e nutrientes nas fibras nervosas responsáveis por conduzir as informações visuais da retina ao cérebro.

O mecanismo pode ser comparado a um pequeno infarto na cabeça do nervo óptico, que funciona como um cabo de transmissão visual. Quando as fibras são “machucadas”, a visão pode ser perdida de forma permanente ou parcial, sem que o paciente sinta dor.

Os sintomas mais frequentes incluem a percepção de manchas ou áreas escuras no campo visual, frequentemente percebidas ao acordar. Muitos pacientes relatam a perda da parte superior ou inferior do campo de visão, sem aviso prévio.

Os fatores de risco são multifatoriais e incluem:

  • Idade acima de 50 anos
  • Hipertensão arterial
  • Diabetes mellitus
  • Colesterol elevado
  • Doenças cardiovasculares
  • Tabagismo
  • Apneia obstrutiva do sono

Esses fatores podem potencializar a vulnerabilidade do nervo óptico a episódios isquêmicos, independentemente do uso de medicamentos.

Análises de especialistas e evidências científicas

O oftalmologista Gustavo Bonfadini, especialista em cirurgia de catarata e doutor em oftalmologia pela UNIFESP, explica que a Noiana ocorre quando o fluxo sanguíneo da parte anterior do nervo óptico é comprometido. Segundo ele, “é como se acontecesse um pequeno infarto na cabeça do nervo óptico, que funciona como um cabo que leva as informações captadas pela retina até o cérebro”.

Bonfadini destaca que a ausência de dor e a perda súbita de visão são características marcantes, dificultando a identificação precoce do problema. Ele recomenda que qualquer alteração visual seja avaliada imediatamente por um oftalmologista.

O professor Clayton Macedo, da UNIFESP e diretor de comunicação da SBEM, afirma que a associação entre agonistas de GLP‑1 e Noiana é extremamente rara. “Há sinal de associação, mas ainda é difícil estabelecer uma relação direta de causa e efeito”, comenta o especialista.

Um estudo publicado na revista Diabetes Care, da Associação Americana de Diabetes (ADA), trouxe dados relevantes:

  • Incidência de Noiana em usuários de GLP‑1: 18 casos por 100 mil pessoas‑ano
  • Incidência em usuários de DPP‑4: 7,2 casos por 100 mil pessoas‑ano

Embora a taxa seja maior entre usuários de GLP‑1, os números ainda representam um risco muito baixo quando comparados ao número total de pacientes tratados. Os autores do estudo ressaltam a necessidade de monitoramento contínuo e de investigação de possíveis fatores de confusão.

Orientações práticas para quem usa canetas de GLP‑1

Pacientes que utilizam canetas emagrecedoras contendo semaglutida ou tirzepatida devem estar atentos a qualquer mudança repentina na visão. Caso percebam manchas, perda de parte do campo visual ou visão embaçada, a orientação é buscar atendimento oftalmológico de urgência.

Profissionais de saúde devem registrar detalhadamente qualquer sintoma visual relatado, investigando a temporalidade em relação ao início do tratamento e verificando a presença de comorbidades que aumentem o risco de Noiana.

Algumas medidas preventivas podem ser adotadas:

  • Controle rigoroso da pressão arterial, glicemia e colesterol
  • Abandono do tabagismo
  • Diagnóstico e tratamento da apneia do sono
  • Realização de exames oftalmológicos periódicos, especialmente nos primeiros seis meses de uso

É importante que os pacientes mantenham um diálogo aberto com seus endocrinologistas e oftalmologistas, relatando quaisquer efeitos colaterais inesperados. A comunicação eficaz entre especialidades pode acelerar o diagnóstico e reduzir o risco de sequelas permanentes.

Em síntese, embora a ocorrência de Noiana seja rara, a vigilância ativa por parte de pacientes, médicos e autoridades regulatórias é essencial para garantir a segurança no uso das canetas de GLP‑1. A colaboração entre fabricantes, órgãos de saúde e a comunidade científica continuará sendo fundamental para esclarecer possíveis relações e aprimorar as recomendações clínicas.

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