Em abril de 2025, Felipe Oliveira Costa, de 7 anos, recebeu um transplante de fígado no Hospital Sírio‑Libanês, após sofrer grave comprometimento hepático em casa, na Praia Paulistinha, zona sul de São Paulo. O procedimento foi viabilizado graças à doação do próprio pai, que se voluntariou para doar parte do órgão.
Diagnóstico e evolução clínica de Felipe
O menino desenvolveu a síndrome de Stevens‑Johnson, desencadeada por reação a medicamentos, o que levou à internação e, sete dias depois, à descoberta de danos no fígado. A condição evoluiu para cirrose hepática, com ascite e insuficiência hepática, colocando sua vida em risco.
A mãe, Thais Angela da Costa, relatou que o quadro se agravou apesar de seis meses de tratamento intensivo. O médico responsável recomendou urgentemente o transplante, pois a expectativa de vida sem o procedimento era mínima.
Felipe foi admitido no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, enquanto a cirurgia ocorreu no complexo hospitalar Sírio‑Libanês, reconhecido pela excelência em transplantes de órgãos.
O caso ilustra a vulnerabilidade das crianças diante da escassez de doadores compatíveis, sobretudo quando se trata de órgãos de grande porte como o fígado.
Doação viva: a solução encontrada
Quando a lista de espera não ofereceu um fígado de doador falecido compatível com o tamanho e peso de Felipe, a equipe médica propôs a alternativa da doação viva. O pai, Abimael Maurício Oliveira Silva, aceitou doar parte do seu fígado, mesmo sabendo dos riscos.
Para ser elegível, o doador precisou atender a critérios rigorosos: idade adulta, saúde comprovada, peso mínimo de 90 kg e ausência de doenças que comprometessem a função hepática. Abimael, que havia deixado o álcool há seis meses, reduziu seu peso de 106 kg para atender à exigência.
O procedimento de hepatectomia parcial removeu aproximadamente 30 % do fígado do pai, que se regenerou rapidamente, como explicam especialistas. O órgão remanescente aumentou de volume, mantendo a função vital do doador.
Após a cirurgia, Felipe iniciou recuperação em casa, retomou atividades cotidianas e tem previsão de voltar à escola no próximo ano letivo.
O sucesso do transplante reforça a importância da doação viva, especialmente em casos pediátricos onde a compatibilidade de tamanho é um obstáculo crítico.
Desafios na doação de órgãos para crianças no Brasil
Segundo o diretor do departamento de transplante hepático do Sírio‑Libanês, Eduardo Antunes da Fonseca, apenas 2 % das notificações de doadores falecidos referem‑se a crianças. Essa baixa taxa de disponibilidade dificulta a vida de pacientes pediátricos que aguardam transplantes.
O Ministério da Saúde define doador vivo como pessoa maior de idade, juridicamente capaz, saudável e disposta a doar sem comprometer sua própria saúde. Os órgãos que podem ser doados incluem rins, parte do fígado, medula óssea e pulmões, desde que haja compatibilidade sanguínea e avaliação clínica.
Já o doador morto pode ser alguém com morte encefálica ou parada cardíaca, permitindo a doação de múltiplos órgãos e tecidos, como córneas, válvulas e ossos.
- Rins
- Fígado (parte)
- Pulmões
- Pâncreas
- Intestino
Em 2025, a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) registrou que 45 % das famílias recusaram a doação de órgãos de seus entes queridos. Entre os casos envolvendo crianças, a taxa de recusa é ainda maior, refletindo barreiras culturais e falta de informação.
Especialistas apontam que campanhas de conscientização, apoio psicológico às famílias e simplificação dos processos de autorização podem reverter esse cenário.
Impacto da doação viva no futuro dos transplantes pediátricos
O cirurgião José Sampaio, responsável pelo Serviço de Transplante Hepático do Hospital Pequeno Príncipe, no Paraná, destaca que a porção do fígado doada por um adulto a uma criança representa uma fração pequena, mas suficiente para restaurar a função hepática infantil.
Ele explica que o fígado possui notável capacidade de regeneração: “O órgão remanescente expande seu volume de forma global, garantindo que tanto o doador quanto o receptor mantenham a saúde”.
Essa característica biológica abre caminho para políticas públicas que incentivem a doação viva, reduzindo a dependência de órgãos de doadores falecidos.
Além disso, o caso de Felipe serve como exemplo inspirador para outras famílias que enfrentam situações semelhantes, mostrando que a solidariedade familiar pode salvar vidas.
Para ampliar o número de doações, recomenda‑se:
- Educação continuada sobre a importância da doação de órgãos nas escolas e comunidades.
- Facilitação de processos burocráticos para doadores vivos.
- Campanhas de mídia que humanizem histórias de sucesso, como a de Felipe e seu pai.
- Treinamento de profissionais de saúde para abordar famílias de forma empática.
Com essas medidas, o Brasil pode avançar na redução da mortalidade infantil por falta de órgãos, oferecendo esperança a milhares de crianças que aguardam na fila de espera.








