Em 25 de setembro de 2024, o Papa Leão XIV alertou a comunidade internacional sobre os riscos da inteligência artificial e do colonialismo financeiro durante uma alocução na sede da Unesco, em Paris. O discurso fez parte da visita apostólica do pontífice à França e reuniu diplomatas, autoridades acadêmicas e representantes da sociedade civil.
Inteligência artificial e a dignidade humana
O pontífice destacou que a tecnologia avança sem que a dignidade da pessoa seja colocada no centro do desenvolvimento. Ele apontou o paradoxo de atribuir “inteligência” a máquinas enquanto se reduz o valor da vida humana ao critério da eficiência. Segundo Leão XIV, “quando a pessoa deixa de ser produtiva, é descartada como se fosse um equipamento obsoleto”.
Para o papa, a falta de uma deontologia compartilhada na criação de algoritmos gera um ambiente fértil para a desinformação. Ele enumerou os principais riscos associados ao uso indiscriminado da IA:
- Amplificação de notícias falsas e manipulação de opinião pública;
- Concentração de poder econômico nas mãos de poucos gigantes tecnológicos;
- Desigualdade de acesso a recursos digitais entre países desenvolvidos e em desenvolvimento;
- Erosão da privacidade individual.
Ao citar o preâmbulo da carta constitucional da Unesco de 1946, o papa reforçou que “as defesas da paz devem ser construídas nas mentes dos homens”, e não em códigos binários que ignoram a ética.
Hiperconexão, isolamento e crise de informação
A hiperconexão, segundo o líder católico, cria novos tipos de isolamento. Embora a comunicação seja mais rápida, ela não se traduz automaticamente em verdade. A abundância de informação não garante sabedoria, e a velocidade das redes sociais pode favorecer a superficialidade.
Leão XIV comparou o cenário atual a uma Torre de Babel moderna, onde a globalização avança sem fraternidade e impõe ideologias que fragmentam a cooperação internacional. Em contraste, ele evocou a praça de Pentecostes como símbolo de diálogo genuíno entre nações.
O papa também alertou para a aplicação arbitrária das leis por grupos de poder, que utilizam a tecnologia para reforçar estruturas de dominação econômica. Ele enfatizou que qualquer ciência sem ética perde seu sentido existencial.
Chamado à ética, educação e proteção ambiental
No encerramento, o pontífice conclamou a comunidade internacional a proteger crianças e jovens no ambiente digital, destacando a necessidade de criar espaços seguros e educativos online. Ele ressaltou que a crise ecológica exige ação conjunta, lembrando que “existe apenas uma Terra para todos e uma única e comum natureza humana”.
Leão XIV reafirmou sua confiança nas instituições multilaterais, apontando a educação como o principal instrumento para superar medos, combater a desinformação e construir uma paz duradoura. Segundo ele, a justiça virtuosa, e não meros contratos, deve ser a base da convivência global.
Em síntese, o discurso do papa em Paris foi um convite à reflexão profunda sobre como a humanidade pode guiar a tecnologia rumo ao bem comum, sem sacrificar valores fundamentais como dignidade, solidariedade e respeito ao planeta.

26 anos, programador, músico.
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