Um estudo recente, conduzido entre março de 2022 e agosto de 2024, revelou que homens submetidos a altos níveis de estresse no trabalho têm até dez vezes mais chances de desenvolver disfunção erétil. A pesquisa, publicada no International Journal of Clinical Practice, analisou 826 participantes entre 22 e 40 anos que trabalhavam em período integral. Os resultados apontam para uma forte associação entre a pressão psicológica no ambiente profissional e a saúde sexual masculina.
Metodologia e perfil dos participantes
Os pesquisadores recrutaram homens de diferentes setores econômicos, garantindo diversidade de cargos e jornadas. A idade média dos voluntários foi de 31,45 anos, e todos foram avaliados quanto ao nível de estresse percebido no trabalho.
Para excluir interferências, foram descartados participantes com histórico de diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, distúrbios endócrinos ou neurológicos, além de quem fazia uso recente de medicamentos que afetam a função sexual.
Os sujeitos foram divididos em quatro grupos conforme um índice criado pelos autores para mensurar o acúmulo de estresse psicológico no ambiente laboral. Cada grupo recebeu uma classificação de baixo, médio‑baixo, médio‑alto ou alto estresse.
A avaliação da função erétil utilizou uma escala validada, permitindo quantificar a gravidade dos sintomas em cada participante.
Resultados principais: a magnitude da associação
Entre os homens classificados como de alto estresse, 54,37% apresentaram disfunção erétil, enquanto apenas 8,21% dos indivíduos com baixo estresse relataram o problema.
Mesmo após ajustar os dados para idade, índice de massa corporal, tabagismo e consumo de álcool, a chance de desenvolver disfunção erétil foi 10,26 vezes maior no grupo de alto estresse em comparação ao de baixo estresse.
A análise mostrou ainda que, comparado ao grupo menos estressado, a probabilidade aumentou 2,35 vezes para o nível médio‑baixo, 4,87 vezes para o nível médio‑alto e 10,26 vezes para o nível mais elevado.
Essas diferenças representam cerca de 46 pontos percentuais entre os extremos, um salto clínico que chama a atenção de profissionais de saúde.
Fatores específicos que intensificam o risco
O estudo identificou cinco dimensões da vida profissional que influenciam a saúde sexual: jornada de trabalho, autonomia de decisão, apoio do supervisor, relacionamento com colegas e pressão por promoção.
- Jornada de trabalho: homens com alto estresse trabalhavam em média 65,32 horas semanais, contra 42,18 horas dos menos estressados.
- Pressão por promoção: destacou‑se como o segundo fator com maior impacto negativo.
- Autonomia limitada e suporte insuficiente do supervisor também contribuíram para o aumento do risco.
A cada dez horas adicionais de trabalho por semana, a pontuação na escala de função erétil diminuiu 1,82 pontos, indicando deterioração progressiva.
Longas jornadas podem gerar privação de sono, hábitos alimentares inadequados e redução da prática de atividades físicas, todos reconhecidos como prejudiciais à saúde sexual.
Explicações fisiológicas: cortisol e testosterona
Os pesquisadores observaram que o aumento da pressão psicológica eleva os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, ao mesmo tempo em que reduz a testosterona.
Essas alterações hormonais podem ocorrer ao longo de semanas e anteceder a piora da função erétil, sugerindo um mecanismo biológico plausível.
O cortisol elevado pode interferir na produção de óxido nítrico, essencial para a vasodilatação peniana, enquanto a queda de testosterona afeta o desejo sexual e a qualidade da ereção.
Esses achados reforçam a necessidade de abordar o estresse como fator de risco modificável, complementando a investigação de causas orgânicas tradicionais.
Implicações clínicas e recomendações práticas
O urologista Roni de Carvalho Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, enfatiza que, embora o estudo seja observacional, ele destaca a importância de tratar o estresse ocupacional como um risco passível de intervenção.
Na prática clínica, recomenda‑se avaliar o nível de estresse do paciente durante a anamnese, oferecendo orientações sobre manejo de carga horária, técnicas de relaxamento e, se necessário, encaminhamento para apoio psicológico.
Ao mesmo tempo, a investigação de causas orgânicas – como disfunções vasculares ou hormonais – deve ser mantida conforme protocolos estabelecidos.
Intervenções que reduzam a jornada de trabalho, promovam maior autonomia e melhorem o suporte gerencial podem ter impacto direto na saúde sexual dos colaboradores.
Empresas que investem em programas de bem‑estar, flexibilização de horários e cultura de apoio podem contribuir para a diminuição dos índices de disfunção erétil entre seus funcionários.








