A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou, nesta terça‑feira, um alerta sobre a comercialização e o uso clandestino de tirzepatida em pó no Brasil. O comunicado destaca que a substância, que faz parte do medicamento injetável Mounjaro, tem sido vendida em redes sociais e preparada por usuários sem nenhum controle de qualidade. A prática, que vem se espalhando em ambientes domésticos, representa um perigo real à saúde pública.
Venda ilegal e divulgação nas redes sociais
Nos últimos meses, perfis de comércio informal têm anunciado tirzepatida em forma de pó, prometendo aos consumidores a possibilidade de diluir o produto em água e aplicar por via subcutânea. Os anúncios são acompanhados de vídeos tutoriais que ensinam passo a passo como montar a solução, ignorando totalmente as normas sanitárias exigidas para medicamentos injetáveis.
Essas publicações costumam usar linguagem persuasiva, ressaltando supostos benefícios como perda de peso rápida e controle da glicemia sem a necessidade de prescrição médica. Contudo, a Anvisa ressalta que não há garantia de que o pó realmente contenha tirzepatida, tampouco de que a dosagem seja correta.
Além da falta de comprovação de composição, a origem desses produtos costuma ser obscura, muitas vezes vinculada a laboratórios clandestinos que não seguem as boas práticas de fabricação. O resultado é um mercado negro que coloca em risco a vida de quem decide consumir o produto sem supervisão profissional.
Riscos à saúde da manipulação caseira
A preparação de uma solução injetável exige condições de esterilidade rigorosas. Quando o pó é misturado com água ou outra solução em ambientes domésticos, há exposição a microrganismos como bactérias, fungos e vírus, que podem contaminar a solução e causar infecções graves.
Os principais perigos associados ao uso de tirzepatida em pó manipulada em casa incluem:
- Infecções locais: dor, vermelhidão, inchaço e formação de abscessos no ponto de injeção.
- Sepse: disseminação de microrganismos pela corrente sanguínea, podendo levar à falência de órgãos e morte.
- Reações inflamatórias: partículas microscópicas do pó podem irritar tecidos, provocando lesões e inflamações crônicas.
- Dosagem inadequada: sem controle de concentração, o paciente pode receber doses subterapêuticas ou excessivas, comprometendo a eficácia e aumentando o risco de efeitos adversos.
Mesmo que a embalagem pareça lacrada e o produto visualmente limpo, isso não garante a ausência de contaminantes invisíveis a olho nu. O processo de esterilização de medicamentos injetáveis requer equipamentos específicos, como autoclaves, que são inexistentes em casas.
Quando um contaminante entra diretamente na corrente sanguínea, o organismo pode responder com febre, calafrios, hipotensão e choque séptico, situações que demandam atendimento de emergência em unidades de terapia intensiva.
Ações da Anvisa e orientações para o público
Em resposta ao aumento das denúncias, a Anvisa, em parceria com a Receita Federal e a Polícia Federal, realizou, no dia 22 de setembro, uma operação que resultou na apreensão de mais de 1 000 frascos contendo peptídeos e canetas anti‑obesidade ilegais. As apreensões ocorreram em 19 ações distribuídas ao longo da primeira quinzena de setembro, incluindo o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, o Galeão.
A agência reforça que a tirzepatida regulamentada no país só pode ser adquirida em farmácias ou farmácias de manipulação mediante prescrição médica válida. Qualquer oferta fora desse canal deve ser considerada ilegal e potencialmente perigosa.
Para quem já recebeu ou pretende receber tirzepatida em casa, a Anvisa recomenda:
- Buscar imediatamente orientação de um médico ou farmacêutico antes de qualquer aplicação.
- Desconsiderar tutoriais ou instruções encontradas em redes sociais que incentivam a manipulação caseira.
- Denunciar anúncios suspeitos à Anvisa ou aos órgãos de defesa do consumidor.
- Não reutilizar seringas ou agulhas, pois isso aumenta o risco de transmissão de doenças infecciosas.
Além disso, a agência alerta que a prática de comprar medicamentos sem a devida avaliação regulatória pode acarretar sanções penais, incluindo prisão e multa, conforme previsto na Lei de Crimes contra a Saúde.
Em síntese, a tentativa de economizar ou acelerar resultados de saúde ao improvisar a preparação de tirzepatida em casa pode ter consequências irreversíveis. A única forma segura de utilizar esse medicamento é por meio de produtos aprovados, esterilizados e administrados sob supervisão médica.








