Em 2024, o governo albanês apresentou um projeto que pode gerar o surgimento de um novo país dentro da capital, Tirana. A iniciativa visa transformar uma área de 27 hectares em um Estado soberano dedicado à Ordem Bektashi, uma corrente mística do islamismo. Se aprovada, a nova entidade seria menor que o Vaticano, que tem cerca de 44 hectares.
A proposta do Estado Soberano da Ordem Bektashi
O primeiro‑ministro Edi Rama anunciou oficialmente a ideia durante uma conferência de imprensa em setembro, destacando que o objetivo é reconhecer oficialmente a contribuição histórica da comunidade Bektashi para a cultura albanesa. O território proposto ficará totalmente inserido no perímetro urbano de Tirana, próximo ao centro administrativo, facilitando o acesso tanto para fiéis quanto para visitantes.
Com 27 hectares – equivalente a cerca de 0,27 km² – o espaço seria o menor país reconhecido internacionalmente, superando apenas o Vaticano em termos de extensão. A proposta inclui a criação de um governo próprio, com poderes legislativos limitados à esfera religiosa e cultural, inspirado no modelo de administração do Estado da Cidade do Vaticano.
Para garantir autonomia, o novo Estado teria seu próprio sistema de segurança, moeda simbólica para transações internas e um corpo diplomático reduzido, responsável por estabelecer relações com países que reconheçam a sua soberania. A legislação interna seria baseada nos princípios da tolerância, do diálogo inter‑religioso e da preservação do patrimônio espiritual Bektashi.
- Área: 27 hectares (0,27 km²)
- População estimada: entre 5 mil e 10 mil residentes
- Governo: Conselho de líderes religiosos Bektashi
- Moeda: “Bektash” (uso simbólico)
- Relações externas: Embaixadas limitadas a países com comunidades Bektashi
Contexto histórico e religioso da Bektashia na Albânia
A Ordem Bektashi tem raízes no século XIII, surgindo como um ramo esotérico do islamismo que combina elementos sufi, cristãos ortodoxos e práticas locais. Seu caráter místico enfatiza a tolerância religiosa, o respeito ao livre‑pensamento e o diálogo entre diferentes crenças, o que a tornou historicamente uma ponte cultural em uma região marcada por conflitos sectários.
Segundo o último censo realizado em 2021, menos de 5% da população albanesa se declara Bektashi, representando aproximadamente 150 mil pessoas. Apesar da minoria numérica, a comunidade possui um legado significativo na literatura, música e arquitetura do país, com numerosos tekkes (centros de culto) espalhados pelo território nacional.
Durante o regime comunista de Enver Hoxha, a Albânia declarou-se o primeiro Estado oficialmente ateu do mundo em 1967, proibindo todas as práticas religiosas e confiscando propriedades e templos. A repressão atingiu duramente a Ordem Bektashi, que viu seus tekkes fechados e seus líderes perseguidos.
Com a queda do comunismo no início dos anos 1990, a liberdade religiosa foi restaurada e a comunidade Bektashi retomou suas atividades, reabrindo templos e revitalizando suas tradições. O retorno à vida pública permitiu que a ordem reconquistasse espaço na sociedade albanesa, embora ainda enfrente desafios de reconhecimento institucional.
Desafios e implicações internacionais
O projeto de criar um microestado dentro de Tirana levanta questões diplomáticas complexas. Primeiro, a Constituição albanesa precisaria ser emendada para permitir a existência de um território soberano dentro de suas fronteiras, algo que ainda não foi debatido no parlamento. Segundo, o reconhecimento internacional dependerá da disposição de outros Estados em aceitar a legitimidade de um novo país tão pequeno.
Especialistas em direito internacional apontam que a criação de um Estado reconhecido requer, entre outros requisitos, uma população permanente, um governo efetivo e a capacidade de manter relações exteriores. Embora o plano preveja esses elementos, a viabilidade prática ainda está em análise.
Comparativamente, o Vaticano mantém sua soberania graças a acordos históricos com a Itália e à sua importância como sede da Igreja Católica. O novo Estado Bektashi precisará de acordos semelhantes, possivelmente com a Albânia, para garantir acesso a recursos básicos como água, energia e serviços de saúde.
Além disso, a iniciativa pode inspirar outras minorias religiosas a buscar autonomia semelhante, gerando um debate sobre a fragmentação territorial e a estabilidade política na região dos Bálcãs. Por outro lado, defensores argumentam que a medida reforçaria a diversidade cultural e promoveria o turismo religioso, atraindo visitantes interessados na singularidade do projeto.
Em resumo, a proposta do Estado Soberano da Ordem Bektashi representa uma tentativa ousada de combinar tradição religiosa com inovação política. Se aprovada, a Albânia não só ganharia o menor país do mundo, mas também abriria precedentes para novas formas de organização estatal baseadas em identidade cultural e espiritual.








