Na manhã da quinta‑feira, 24 de novembro de 2024, o Ministério Público de São Paulo, a Receita Federal e as polícias Militar e Civil deram início à Operação Crédito Oculto, em conjunto com a Secretaria de Estado da Fazenda e a Procuradoria‑Geral do Estado. A ação foi realizada em 29 endereços da capital e interior paulista, atingindo 13 pessoas físicas e 24 pessoas jurídicas ligadas a um esquema que movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
Integração entre órgãos e o início da operação
A Operação Crédito Oculto nasce como desdobramento da já conhecida Operação Carbono Oculto, demonstrando a capacidade de cooperação entre diferentes instâncias de segurança e fiscalização. O Ministério Público coordenou os mandados de busca e apreensão, enquanto a Receita Federal concentrou seus esforços na análise de documentos fiscais e movimentações bancárias.
O apoio dos Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECOs) de Rio de Janeiro, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo foi decisivo para ampliar o alcance da investigação. Cada GAECO trouxe expertise regional, permitindo rastrear recursos que atravessavam fronteiras estaduais.
Um dos pontos de destaque foi a participação do Comando de Policiamento de Choque da Polícia Militar, representado pelo coronel Rogério Nery. Segundo ele, a ação conjunta garante a segurança dos agentes e a eficácia na execução das medidas judiciais, evitando fugas ou destruição de provas.
- Ministério Público de São Paulo (MPSP)
- Receita Federal
- Polícia Militar – Comando de Policiamento de Choque
- Polícia Civil
- Secretaria de Estado da Fazenda
- Procuradoria‑Geral do Estado
Estrutura financeira complexa e mecanismos de ocultação
Os investigadores revelaram que os suspeitos criaram múltiplas camadas de empresas para esconder a identidade dos verdadeiros controladores. Entre as entidades analisadas estavam fintechs, fundos de investimento, holdings, empresas patrimoniais e companhias de fachada.
Um dos esquemas consistia em usar uma fintech para receber grandes volumes de recursos, que eram então transferidos para fundos de investimento com gestão opaca. Esses fundos, por sua vez, repassavam o dinheiro para holdings que detinham participações em empresas de energia e distribuição de combustíveis.
O objetivo era duplo: dificultar o rastreamento dos valores e legitimar a origem dos recursos por meio de operações comerciais aparentes. Em um dos casos, cerca de R$ 100 milhões foram enviados a uma empresa sucroalcooleira, que serviu de fachada para financiar a compra de uma distribuidora de combustíveis.
De acordo com o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, “o crime organizado se estrutura de forma cada vez mais complexa e utiliza diferentes mecanismos para movimentar recursos, ocultar patrimônio e ampliar sua atuação”. Ele enfatizou que a resposta do Estado precisa ser igualmente integrada e multidisciplinar.
Os documentos apreendidos mostraram ainda a utilização de contas de passagem, ou seja, contas bancárias intermediárias que recebiam os recursos antes de serem encaminhados às empresas finais. Essa técnica aumenta a dificuldade de identificar os beneficiários reais, pois cria um labirinto de transações.
Impactos esperados e próximos passos da investigação
Com a prisão preventiva de alguns dos principais suspeitos e o bloqueio de bens avaliados em centenas de milhões de reais, a Operação Crédito Oculto já provocou um choque nas redes de apoio ao crime organizado. As autoridades esperam que a desmontagem das estruturas financeiras impeça a continuidade de novos esquemas de lavagem de dinheiro.
Nos próximos dias, a equipe de investigação deve analisar detalhadamente os documentos fiscais e bancários apreendidos, a fim de identificar outros elos da cadeia criminosa que ainda não foram revelados. A cooperação internacional também está sendo considerada, já que parte dos recursos pode ter sido transferida para contas no exterior.
Além disso, a Secretaria de Estado da Fazenda pretende revisar os procedimentos de controle de operações suspeitas, implementando sistemas de monitoramento mais rígidos para evitar a criação de novas fintechs de fachada.
O secretário Nico destacou que “a união entre as forças de segurança e os demais órgãos permite cruzar informações, aprofundar as investigações e atingir não apenas os responsáveis pelos crimes, mas também as estruturas que dão sustentação às organizações criminosas”. Essa estratégia deve servir de modelo para futuras ações contra o crime financeiro no Brasil.
Por fim, a sociedade civil foi convocada a ficar atenta a práticas suspeitas em transações comerciais e a denunciar possíveis irregularidades. A transparência e o engajamento da população são fundamentais para impedir que esquemas semelhantes voltem a se desenvolver.








