Sarah e Geoff Moorhouse, de 64 anos, decidiram usar a renda da aposentadoria para viajar, comprar um carro novo e viver o momento, ao invés de acumular patrimônio para herdar aos filhos. A decisão foi anunciada em entrevista à BBC no início de 2024, enquanto o casal ainda reside no Reino Unido. Eles contam com o apoio da filha mais nova, Poppy, que elogia a escolha dos pais.
A escolha de viver o presente
Para Sarah, que trabalhou como administradora de escola, a aposentadoria chegou como um convite para desfrutar de experiências que antes eram adiadas. “Só se vive uma vez”, afirma, explicando que a viagem para a Escócia, visitas ao Lake District e passeios em Norfolk são parte de um calendário de quatro a cinco viagens anuais.
O casal ainda trocou o clássico Sunbeam Alpine por um Mazda MX‑5, um carro esportivo que simboliza a vontade de renovar o estilo de vida. A troca foi descrita como “uma forma de celebrar a liberdade que a aposentadoria traz”.
Dados que apontam a mudança de comportamento
Um relatório da Standard Life, divulgado em março, revelou que 15% dos pais britânicos com filhos de todas as idades priorizam o consumo próprio durante a aposentadoria, ao invés de acumular herança. Nos Estados Unidos, a pesquisa da Northwestern Mutual mostrou queda de 25% para 20% na expectativa de receber herança entre 2023 e 2024.
- 15% dos pais britânicos preferem gastar o próprio dinheiro.
- 20% dos americanos não esperam herança.
- 69% dos aposentados no Reino Unido têm previdência privada além da pública.
- 56% dos aposentados nos EUA têm previdência privada.
- 16% da população aposentada no Reino Unido vive na pobreza.
O estudo do Institute for Fiscal Studies apontou que a renda disponível dos aposentados britânicos, excluídos os gastos com moradia, cresceu mais nas últimas três décadas do que a dos trabalhadores em idade ativa.
Impactos financeiros e sociais
Mike Ambery, diretor de aposentadoria da Standard Life, relaciona o aumento dessa tendência ao desaparecimento dos planos de aposentadoria baseados no salário final, que garantiam pagamentos vitalícios. Hoje, a maioria dos planos são de contribuição definida, cujos recursos podem se esgotar, o que incentiva a busca por prazer imediato.
Entretanto, nem todos têm condições de adotar esse estilo de vida. No Reino Unido, 16% dos aposentados vivem abaixo da linha da pobreza, e nos EUA, a taxa é de 15,4%. Esses números evidenciam que a escolha de gastar a aposentadoria ainda depende de uma base financeira sólida.
Para quem tem segurança econômica, a aposentadoria está se transformando em uma oportunidade de “recompensar” anos de trabalho árduo, investindo em viagens, hobbies e bens de consumo que antes eram impossíveis.
Depoimentos e perspectivas
Poppy, filha de Sarah e Geoff, declarou à BBC que está feliz ao ver os pais aproveitando a vida e que não espera herança alguma. “Nós somos adultos e podemos nos sustentar, então não precisamos depender de um legado”, afirmou.
Outra aposentada, Karen Green, de 60 anos, também compartilhou sua postura: “Fui clara com meus filhos de que provavelmente não deixarei herança, pois pretendo gastar tudo enquanto tenho saúde para aproveitar”.
Essas narrativas reforçam a ideia de que a geração atual de aposentados valoriza mais a qualidade de vida presente do que a segurança financeira futura para a descendência.
Especialistas alertam, porém, que a decisão deve ser ponderada. “É essencial avaliar a longevidade, os custos de saúde e possíveis imprevistos antes de esgotar todas as reservas”, recomenda Ambery.
Em síntese, a história de Sarah e Geoff ilustra uma mudança cultural: a aposentadoria, antes vista como fase de conservação de patrimônio, está sendo reinterpretada como período de realização pessoal. Essa nova mentalidade pode influenciar políticas públicas, produtos financeiros e a própria percepção social sobre o que significa envelhecer com dignidade.








