Na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, realizada em Nova Iorque em 22 de setembro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abordou a necessidade de defender a soberania nacional, enfrentar o crime organizado e regular as grandes empresas de tecnologia. O discurso, transmitido ao vivo para os 193 países membros, marcou mais um momento histórico em que o Brasil assume a palavra no debate de líderes.
Desafios da soberania no cenário internacional
Lula iniciou seu pronunciamento enfatizando que a comunidade internacional está diante de uma escolha clara: multilateralismo ou unilateralismo. Ele reforçou que a soberania dos Estados não pode ser tratada como objeto de negociação ou subordinação a interesses externos.
O presidente ressaltou que o Brasil não cabe no “quintal de ninguém” e que a cooperação entre nações deve se basear em agendas positivas que promovam o desenvolvimento sustentável. Segundo ele, diferenças ideológicas não podem impedir a integração regional, sobretudo em um momento em que a democracia enfrenta novas ameaças de ingerência externa.
Combate ao crime organizado sem terceirização
Ao tratar da violência interna, Lula deixou claro que o Brasil não pretende terceirizar a defesa de suas fronteiras nem delegar a responsabilidade de combater o crime organizado a outros países. Ele citou o aumento da atuação de facções criminosas, que roubam trabalhadores, tiram a vida de mães e deixam policiais vulneráveis.
O presidente enfatizou que a solução passa por cooperação internacional para interromper o fluxo de armas e dinheiro que alimenta essas organizações. Ele lembrou a proposta apresentada ao então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior.
Regulação das big techs e da inteligência artificial
Em relação à tecnologia, Lula alertou para os riscos de uma “revolução tecnológica sem precedentes” conduzida por poucos tecno‑oligarcas. Ele denunciou a tentativa de ressuscitar um modelo de neoliberalismo digital que carece de regras claras e transparência.
O presidente pediu a criação de marcos regulatórios que garantam responsabilidade às plataformas digitais, especialmente no uso de algoritmos que podem impactar a vida dos usuários. Ele destacou que empresas que conhecem os riscos de seus produtos não podem transferir a responsabilidade para as famílias.
- Transparência: obrigação de divulgar como os algoritmos funcionam.
- Responsabilidade: mecanismos de indenização por danos causados.
- Fiscalização: criação de agências independentes para monitorar práticas abusivas.
- Proteção de dados: reforço das leis de privacidade e uso ético da IA.
Além disso, Lula ressaltou a importância de regulamentar a inteligência artificial, apontando que seu uso deve ser orientado por princípios éticos que protejam a dignidade humana.
Crítica ao tarifaço e à indústria de apostas
Lula condenou o chamado “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, definindo a medida como injusta e prejudicial ao comércio exterior do país. Ele argumentou que tais barreiras tarifárias dificultam a competitividade das exportações brasileiras nos mercados globais.
O presidente também criticou a expansão da indústria de apostas (bets), que, segundo ele, transforma o vício em lucro e está endividando milhares de famílias. Lula afirmou que o Brasil não tolerará esse modelo de negócio que destrói lares.
Por fim, Lula aproveitou a ocasião para promover o PIX como exemplo de inovação brasileira que facilita pagamentos e inclusão financeira, reforçando a ideia de que o país pode liderar soluções tecnológicas sem depender de modelos externos.
O discurso de Lula na ONU, portanto, reuniu temas que vão da defesa da soberania à necessidade de regulação tecnológica, passando por um firme posicionamento contra o crime organizado e políticas econômicas desfavoráveis. As palavras do presidente ecoam a busca por um futuro onde o multilateralismo, a cooperação e a justiça social sejam pilares da agenda global.








