O senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ), candidato à Presidência da República, destinou quase R$ 200 mil a um projeto esportivo a pedido de Robson Calixto, conhecido como Peixe, miliciano condenado pela participação no assassinato da vereadora Marielle Franco. A operação ocorreu em 2023, entre o gabinete do senador e a secretária parlamentar Maria de Fátima Bezerra Castro, no Rio de Janeiro. A Polícia Federal identificou indícios de desvio dos recursos públicos.
Contexto da denúncia e das conversas
A investigação começou quando a PF apreendeu o celular de Peixe, que já estava sob investigação pelo homicídio de Marielle e Anderson Gomes desde 2024. No aparelho, foram encontrados prints de conversas no WhatsApp entre o miliciano e Maria de Fátima, que atuava como interlocutora direta no gabinete do senador.
Essas mensagens foram divulgadas inicialmente pelo jornal “O Estado de S. Paulo” e pela revista “piauí”, e depois confirmadas pelo portal G1. O conteúdo das trocas revela pedidos de apoio financeiro, confirmações de encontros e até convites para eventos ligados à Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Detalhes da negociação da emenda
De acordo com o relatório da PF, a negociação da emenda começou em outubro de 2023. Peixe enviou um documento intitulado “Ofício nº 002_2023” para Maria de Fátima, solicitando que a verba fosse encaminhada ao projeto esportivo que ele pretendia implementar em Taquara, bairro da zona oeste da cidade.
- 24/10/2023 – Peixe pergunta quando vem a Brasília.
- 26/10/2023 – Troca de mensagens sobre o deputado Chiquinho Brazão.
- 30/10/2023 – Peixe solicita notícias boas; a assessora responde “Pode deixar”.
Maria de Fátima, em nome do senador, enviou um convite ao deputado Chiquinho Brazão para participar da entrega de 396 coletes balísticos à Polícia Militar, usando o evento como pretexto para reforçar o pedido de recursos.
Dois dias depois, em novembro de 2023, a emenda foi oficialmente destinada ao Ministério do Esporte, que celebrou um termo de fomento com o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP) para o projeto “Jogadores do Futuro”.
Destino dos recursos e indícios de desvio
O repasse totalizou R$ 199.999,79, que deveria ser aplicado na formação de crianças e adolescentes em Taquara, com foco em atividades esportivas e inclusão social. Contudo, um relatório técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), publicado em 2025, apontou graves irregularidades.
Segundo o TCU, a empresa contratada para coordenar o projeto – Romulo Alves – Sociedade Individual de Advocacia – não tem relação com a gestão de projetos esportivos, atuando apenas em serviços advocatícios. Essa incompatibilidade sugere que os recursos foram desviados para fins alheios ao objetivo original.
Além disso, o relatório constatou que a maior parte dos valores foi transferida para contas vinculadas a empresas de fachada, sem comprovação de despesas com material esportivo, treinadores ou infraestrutura nas escolas da região.
Reações e consequências políticas
Flávio Bolsonaro, por meio de sua assessoria, afirmou que a emenda foi destinada “dentro da legislação vigente” e que não há indícios de irregularidade. A nota oficial, publicada em seu site, tenta dissociar o senador de qualquer envolvimento direto com o miliciano.
Entretanto, a oposição e organizações da sociedade civil exigem esclarecimentos detalhados e a abertura de um inquérito no Congresso Nacional. O caso reacende o debate sobre a influência de milicianos nas decisões de recursos públicos e a necessidade de maior transparência nas emendas parlamentares.
O Supremo Tribunal Federal já condenou Peixe a nove anos de prisão, confirmando sua participação como elo entre os executores do assassinato de Marielle e os irmãos Brazão, que também são investigados por supostos crimes de organização criminosa.
Enquanto isso, a PF continua analisando as mensagens e os documentos financeiros para determinar se houve crime de peculato ou lavagem de dinheiro envolvendo o senador ou seus assessores.








