Em abril de 2024, uma jovem sofreu perda parcial de movimentos após percorrer a montanha‑russa Montezum, no parque Hopi Hari, localizado em Vinhedo (SP). O incidente, que resultou em hemorragia intracraniana e edema cerebral, foi investigado pelo Ministério Público de São Paulo. Especialistas apontam que a brusca desaceleração e o chamado efeito chicote podem desencadear lesões neurológicas graves, mesmo sem trauma direto na cabeça.
O caso investigado no Hopi Hari
Júlia e João Pedro Bossoni viajaram de Londrina (PR) para Vinhedo (SP) em busca de diversão no parque temático. Após a primeira experiência na Montezum, a atração de madeira de 42 metros de altura que atinge até 103 km/h, o casal decidiu repetir o percurso utilizando um passe VIP. Horas depois, a jovem começou a apresentar falta de força em um dos membros, seguida de confusão mental.
Ao chegar ao hospital, exames de imagem revelaram hemorragia intracraniana e um edema significativo, sem que houvesse relato de impacto direto na cabeça. O Ministério Público de São Paulo abriu investigação para determinar se a estrutura da atração ou a dinâmica do movimento poderia ter contribuído para o quadro clínico.
O caso ganhou destaque nacional ao ser abordado por veículos de comunicação, despertando a curiosidade de profissionais da saúde e de engenheiros de segurança de parques de diversão.
Mecanismos físicos que provocam lesões neurológicas
Segundo o neurologista Renato Anghinah, professor titular da Faculdade de Medicina do ABC e livre‑docente da USP, a aceleração e a desaceleração abruptas podem fazer o cérebro deslocar‑se dentro do crânio, colidindo contra as meninges e a caixa craniana. Esse movimento interno pode romper vasos sanguíneos, gerando hematomas ou edema.
Além disso, o efeito chicote – comparado a uma colisão traseira de automóvel – projeta a cabeça para trás e, em seguida, para frente com grande velocidade. Essa oscilação pode lesionar a coluna cervical, comprometendo a transmissão de sinais motores e sensitivos entre o cérebro e o resto do corpo.
Outros processos envolvidos incluem:
- Lesão axonal difusa: os axônios, responsáveis pela conexão entre neurônios, são esticados ou rompidos, levando a déficits neurológicos.
- Dissecção arterial: o estiramento da parede das artérias que irrigam o cérebro pode causar fissuras, favorecendo a formação de coágulos ou sangramentos.
- Hipoperfusão cerebral: a mudança súbita de velocidade pode reduzir temporariamente o fluxo sanguíneo, provocando isquemia.
Esses mecanismos não são exclusivos das montanhas‑russas; eles também ocorrem em acidentes automobilísticos, explosões e em esportes de contato, como o futebol americano.
Evidências médicas e estudos de caso
Uma revisão da literatura médica encontrou relatos de dissecções de artérias cervicais, AVCs e hematomas subdurais após passeios em montanhas‑russas ao redor do mundo. Embora a incidência seja baixa, a gravidade dos casos justifica atenção especializada.
Estudos com crianças mostraram que, apesar de raras, as complicações neurológicas podem ocorrer, sobretudo quando há predisposição a doenças vasculares. Em adultos saudáveis, o risco de AVC permanece muito reduzido, porém não inexistente.
Dados do American College of Sports Medicine indicam que 20% dos jogadores aposentados de futebol americano desenvolvem encefalopatia traumática crônica (ETC) devido a choques repetitivos. Esse cenário ilustra como forças de desaceleração podem acumular dano cerebral ao longo do tempo.
O especialista Anghinah enfatiza que, mesmo sem contato direto com o crânio, a energia cinética transmitida ao corpo pode ser suficiente para gerar lesões neurológicas graves, reforçando a necessidade de protocolos de segurança mais rigorosos.
Prevenção e recomendações para parques de diversão
Autoridades sanitárias recomendam que parques realizem avaliações biomecânicas detalhadas de cada atração, medindo forças de G‑force, tempo de desaceleração e amplitude de movimento da cabeça dos passageiros.
É essencial que os fabricantes adotem sistemas de fixação que minimizem o movimento da cabeça, como suportes laterais ou cintos de segurança adequados ao perfil dos usuários.
Além disso, a sinalização clara sobre restrições de saúde – como histórico de epilepsia, problemas de coluna ou doenças vasculares – pode reduzir a exposição de indivíduos vulneráveis a riscos desnecessários.
Para os visitantes, recomenda‑se evitar o consumo de álcool ou substâncias que alterem a percepção antes de embarcar, bem como respeitar as orientações dos operadores quanto à postura correta durante o trajeto.
Em caso de sintomas como tontura, dor de cabeça intensa, náusea ou perda de força após o passeio, a orientação imediata é buscar avaliação médica, pois intervenções precoces aumentam as chances de recuperação completa.
O caso da Montezum serve como alerta para que a indústria do entretenimento invista continuamente em pesquisa, tecnologia e treinamento de pessoal, garantindo que a diversão não se transforme em risco à saúde.








