Em meio ao aumento da preocupação dos brasileiros com a corrupção – que passou de 14% para 22% em apenas 12 dias, segundo pesquisa da Quaest divulgada em 14 de setembro – os candidatos à Presidência da República em 2026 apresentaram seus planos de combate ao desvio de recursos públicos. A pesquisa, realizada entre eleitores de todo o país, mostrou que a corrupção se tornou a principal inquietação da população na semana que antecede a campanha eleitoral. Diante desse cenário, o portal g1 compilou as propostas de todos os pré‑candidatos, destacando medidas que vão da inteligência artificial ao confisco de bens.
Inteligência artificial e transparência digital
O candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, pretende aprofundar o Plano de Integridade e Combate à Corrupção, transformando o Portal da Transparência em uma plataforma baseada em dados abertos e em algoritmos de IA capazes de cruzar informações de diferentes órgãos. Essa iniciativa tem como objetivo detectar padrões suspeitos em licitações, contratos e movimentações financeiras antes que se consolidem em esquemas ilícitos. Além disso, o plano prevê o fortalecimento da Ouvidoria‑Geral da União e a ampliação de mecanismos de participação social por meio de consultas digitais.
Já o candidato Cury propõe a criação do programa “Sociedade Está de Olho”, uma rede que reunirá cidadãos, universidades, entidades da sociedade civil e órgãos de controle para monitorar a aplicação dos recursos públicos. Dentro desse programa, a IA será utilizada para identificar sobrepreços, pagamentos indevidos, fraudes em licitações e possíveis conflitos de interesse. O candidato ainda promete investir em tecnologia, integração de bases de dados e capacitação da Polícia Federal, do Ministério Público e dos tribunais de contas.
Outros candidatos, embora não detalhem todas as ferramentas, também sinalizam a adoção de sistemas automatizados para rastrear emendas parlamentares e monitorar gastos em tempo real. A ideia central é criar um ecossistema digital onde alertas automáticos sejam enviados a fiscais e à sociedade civil sempre que houver indícios de irregularidade. Essa proposta busca reduzir a dependência de auditorias pontuais e tornar a fiscalização contínua e preventiva.
Medidas de confisco, penas e controle de recursos
O confisco de bens obtidos por meio de corrupção aparece como um dos pilares das propostas de diversos candidatos, que defendem a ampliação das hipóteses de apreensão e a redução de brechas jurídicas que permitem a manutenção de patrimônios ilícitos. A proposta inclui a criação de um fundo nacional de recuperação de ativos, que receberia os recursos confiscados para financiar programas sociais e de prevenção à corrupção. Também há a intenção de endurecer penas, estabelecendo regimes mais rigorosos para crimes contra a administração pública.
- Ampliação da Lei das Estatais, com critérios de mercado para recrutamento de diretores.
- Rastreamento obrigatório de todas as emendas parlamentares, com publicação em tempo real.
- Reeditar pacote antifraude na Previdência, inspirando as medidas de 2019.
- Dupla checagem nos empréstimos consignados do INSS para impedir descontos não autorizados.
Flávio Bolsonaro, senador e candidato, foca no fortalecimento da Lei das Estatais e na proteção de empresas públicas e fundos de pensão contra indicações políticas. Seu plano prevê a adoção de critérios de mercado para a escolha de dirigentes, a ampliação da transparência nas contratações e a manutenção de uma agenda permanente de avaliação dos gastos públicos. Além disso, ele propõe a criação de um painel de controle de emendas, que permitiria ao Congresso e à sociedade civil acompanhar a destinação de recursos em cada etapa do processo legislativo.
Desafios na implementação e críticas de especialistas
Apesar da variedade de ideias, nenhum dos documentos apresentados traz cronogramas detalhados, estimativas de custos ou fontes de financiamento para as medidas propostas. A ausência de indicadores de acompanhamento dificulta a avaliação da efetividade das políticas e abre espaço para interpretações divergentes sobre o alcance das metas. Essa falta de clareza também impede que a sociedade civil exerça um controle efetivo sobre a execução dos planos.
Guilherme France, gerente de Advocacy da Transparência Internacional Brasil, alerta que políticas de combate à corrupção exigem mais do que propostas genéricas ou abstratas. Segundo ele, é imprescindível definir estruturas institucionais claras, estabelecer metas mensuráveis e garantir a participação permanente da sociedade civil no monitoramento dos resultados. Sem esses elementos, as iniciativas correm o risco de se tornar meras declarações de intenção.
Em síntese, as propostas para 2026 apontam para uma agenda ambiciosa que combina tecnologia de ponta, endurecimento de punições e maior abertura dos dados públicos. Contudo, a efetividade dessas estratégias dependerá da capacidade dos futuros governos de transformar ideias em ações concretas, dotadas de recursos, prazos e mecanismos de controle robustos. O eleitor brasileiro, agora mais atento ao tema, terá de exigir transparência não apenas nas promessas, mas também na execução das políticas de combate à corrupção.








