O Sistema Único de Saúde (SUS) anunciou, nesta quinta‑feira (17), a unificação do fluxo de atendimento para pacientes com doença renal crônica, passando a oferecer diagnóstico, acompanhamento e diálise em uma única etapa. A medida foi revelada durante o Congresso Brasileiro de Nefrologia, realizado em Belo Horizonte, e responde ao crescimento acelerado dos casos de insuficiência renal no país.
Integração do cuidado: o que muda
A nova Estratégia de Oferta de Cuidado Integrado (OCI) elimina a necessidade de encaminhamentos múltiplos entre diferentes serviços. A partir de agora, o paciente receberá a avaliação inicial, os exames complementares e, se necessário, a indicação para diálise ou diálise peritoneal no mesmo ponto de atenção. Essa centralização reduz o tempo de espera e evita a perda de pacientes nas filas tradicionais.
Além de simplificar o percurso clínico, a OCI permite que os profissionais de saúde compartilhem informações em tempo real, garantindo que o plano terapêutico seja ajustado conforme a evolução da doença. O secretário de Atenção Especializada à Saúde, Mozart Sales, destacou que a integração traz mais eficiência ao sistema e maior segurança para o paciente.
- Diagnóstico confirmado em até 48 horas;
- Exames laboratoriais realizados no mesmo dia da consulta;
- Início da terapia de diálise ou peritoneal sem necessidade de novo agendamento.
Impactos esperados para pacientes e sistema
Com a unificação do atendimento, o SUS estima um aumento de 160 % a 260 % nos repasses financeiros para os prestadores de serviço, o que deve ampliar a oferta de unidades de hemodiálise e centros de diálise peritoneal. Esse reforço financeiro tem o potencial de reduzir a sobrecarga nas unidades já existentes e melhorar a qualidade do serviço prestado.
Para os pacientes, a expectativa é de menor progressão da doença renal crônica, já que o controle precoce reduz a necessidade de intervenções emergenciais. Mozart Sales afirmou que o acompanhamento contínuo permitirá que mais pacientes mantenham a função renal por períodos mais longos, evitando episódios agudos que frequentemente levam à necessidade de diálise.
Outro benefício previsto é a diminuição do absenteísmo nas sessões de diálise. Quando o tratamento está integrado, o paciente tem menos deslocamentos e menos conflitos de agenda, o que favorece a adesão ao plano terapêutico.
Desafios e perspectivas para a expansão da diálise peritoneal
Apesar das vantagens, a transição para um modelo mais integrado enfrenta obstáculos logísticos e de capacitação. Atualmente, a diálise peritoneal representa apenas 4,55 % dos procedimentos realizados no SUS, mas a meta é elevar essa participação para cerca de 15 % nos próximos anos. Essa mudança requer treinamento de equipes, aquisição de equipamentos específicos e educação dos pacientes sobre a técnica.
O Ministério da Saúde já anunciou a abertura de 25 novos pontos de hemodiálise, quatro unidades de diálise peritoneal e 33 centros pré‑dialíticos entre janeiro de 2025 e agosto de 2026. Essas expansões visam atender a demanda crescente, que segundo a Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplante (ABCDT), chegou a 170.868 pacientes em tratamento dialítico em dezembro de 2025.
Segundo estimativas da ABCDT, cerca de 230 mil brasileiros necessitam de terapia de diálise, o que significa que mais de 60 mil pessoas permanecem sem acesso ao tratamento adequado. A integração proposta pelo SUS busca reduzir esse déficit, oferecendo um caminho mais rápido para que pacientes elegíveis ingressem no programa.
Para garantir a sustentabilidade da OCI, o governo está investindo em tecnologias de telemonitoramento, que permitem o acompanhamento remoto dos indicadores clínicos dos pacientes. Essa abordagem reduz a necessidade de visitas presenciais frequentes, principalmente para aqueles que vivem em áreas rurais ou em regiões com difícil acesso a unidades de saúde.
O sucesso da iniciativa dependerá também da participação ativa da comunidade médica e dos pacientes. Campanhas de conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce e da adesão ao tratamento são essenciais para alcançar os resultados esperados.
Em resumo, a unificação do cuidado renal pelo SUS representa um avanço significativo na política de saúde pública, alinhando recursos financeiros, tecnológicos e humanos para oferecer um atendimento mais rápido, eficiente e humano. Se bem implementada, a estratégia pode servir de modelo para outras áreas terapêuticas que também enfrentam fragmentação no percurso do paciente.








