Um estudo da Unifesp revelou que, entre 2008 e 2023, cerca de quinze mulheres foram internadas por dia em hospitais brasileiros devido à violência doméstica. O levantamento abrangeu todo o território nacional e utilizou dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS. Os resultados apontam um cenário alarmante, com grande parte das vítimas apresentando politraumatismo, lesão típica de acidentes graves.
Dados do estudo e metodologia
A pesquisa analisou 90.798 internações de mulheres entre 20 e 59 anos, usando inteligência artificial para detectar padrões ocultos. O algoritmo LDA (Latent Dirichlet Allocation) separou os casos em nove perfis clínicos recorrentes, permitindo identificar grupos de risco específicos. Além disso, os autores empregaram o modelo generativo Llama‑3 para extrair informações de textos livres escritos por médicos em 720 atendimentos entre 2020 e 2026.
Os principais passos metodológicos foram:
- Coleta de dados do SIH (Sistema de Informações Hospitalares) do SUS.
- Aplicação de aprendizado de máquina para classificação de perfis de internação.
- Uso de IA generativa para analisar prontuários eletrônicos e captar detalhes não estruturados.
Essa abordagem combinada permitiu revelar associações que passariam despercebidas em análises tradicionais, como a relação entre tipo de arma e região do corpo lesionada.
Perfis de lesões e armas utilizadas
O perfil mais frequente (17,2% dos casos) reúne mulheres jovens, de 20 a 29 anos, que são operadas às pressas por politraumatismos ou ferimentos torácicos causados por objetos cortantes. Outro grupo significativo inclui mulheres de 40 a 59 anos, internadas após agressão por força corporal ou objetos contundentes. O cenário mais grave, representando 5,5% das internações, envolve agressões com arma de fogo ou envenenamento, exigindo cuidados intensivos e apresentando alto risco de mortalidade.
As associações entre lesões e armas foram claras:
- Traumatismos no punho e na mão correlacionam-se fortemente com objetos cortantes, indicando tentativas de defesa.
- Agressões com arma de fogo aumentam quase oito vezes a probabilidade de lesões abdominais.
- Facas e objetos cortantes elevam o risco de ferimentos no tórax e abdômen.
- Golpes com garrafa ou vidro multiplicam por seis a chance de lesão nas mãos.
Além disso, a violência sexual apareceu associada a lesões genitais, com risco quase 19 vezes maior que nos demais casos analisados.
Implicações para políticas públicas e prevenção
Os achados reforçam a necessidade de estratégias de saúde pública que vão além da simples notificação de violência. É imprescindível integrar análises de dados avançadas nos sistemas de vigilância epidemiológica, permitindo intervenções mais precisas e tempestivas. Programas de treinamento para profissionais de saúde devem incluir a identificação de sinais de politraumatismo vinculados à violência doméstica, evitando que casos graves sejam tratados como acidentes comuns.
Políticas de prevenção também precisam considerar a distribuição etária e o tipo de arma utilizada. Campanhas de conscientização direcionadas a mulheres jovens podem reduzir a incidência de cortes e ferimentos torácicos, enquanto ações voltadas para mulheres mais velhas devem focar na prevenção de agressões por objetos contundentes e armas de fogo.
Por fim, a pesquisa destaca o papel estratégico da inteligência artificial na saúde da mulher. Ao transformar grandes volumes de dados hospitalares em informações acionáveis, a IA oferece um caminho promissor para detectar padrões de violência antes que eles se traduzam em fatalidades. Investir em infraestrutura tecnológica e capacitação de equipes é, portanto, um passo fundamental para romper o ciclo de violência doméstica no Brasil.








