Na manhã de 17 de setembro de 2024, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que imporia tarifas elevadas à União Europeia caso considerasse hostil a iniciativa europeia de aprofundar os laços com o Canadá. A fala foi feita durante deslocamento para um evento na Carolina do Norte, onde o mandatário respondeu a perguntas de jornalistas. O alerta de Trump vem em meio a uma disputa comercial que já envolve proibições de importação e retaliações tarifárias entre os três blocos.
Relações comerciais entre EUA, UE e Canadá em foco
Os Estados Unidos, a União Europeia e o Canadá formam, juntos, um dos maiores blocos de comércio global, movimentando quase US$ 900 bilhões em transações anuais. Historicamente, os três parceiros mantêm acordos que facilitam a circulação de bens, serviços e investimentos, mas divergências políticas recentes têm testado essa cooperação. A proposta da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, de tornar o Canadá o primeiro “membro associado” da UE, trouxe à tona questões de soberania e de competição geopolítica.
Para a UE, a associação do Canadá representa um reforço nas áreas de tecnologia, defesa e energia, além de criar um contrapeso às ambições americanas na região. Já o Canadá vê na parceria uma oportunidade de diversificar mercados e garantir maior resiliência diante de pressões externas. Essa dinâmica, porém, colide com a postura protecionista adotada por Trump, que tem usado a Lei Tarifária de 1930 como ferramenta para penalizar países que, segundo ele, discriminam produtos americanos.
Reação de Trump e ameaça de tarifas
Durante entrevista, Trump afirmou que, se a UE avançar com a associação do Canadá, considerará a medida “hostil” e aplicará “tarifas muito altas ou interromperá o comércio em muitos produtos”. O presidente descreveu a proposta como “risível” e deixou claro que está disposto a usar todo o arsenal legal disponível para proteger a indústria norte‑americana. A ameaça inclui a possibilidade de tarifas adicionais de até 50% sobre itens como queijo, móveis e papel, além de proibições de importação de laticínios, motocicletas e bebidas alcoólicas canadenses.
O discurso de Trump foi acompanhado por uma declaração do porta‑voz da Comissão Europeia, Olof Gill, que rejeitou a interpretação de que a iniciativa europeia seria contra os Estados Unidos. Gill ressaltou que o fortalecimento dos laços com o Canadá “não é contra ninguém”, mas sim uma estratégia para ampliar a capacidade conjunta dos parceiros e garantir segurança econômica.
Posicionamento da UE e do Canadá
Ursula von der Leyen, ao apresentar a proposta, enfatizou que o Canadá poderia se tornar o primeiro “membro associado” da UE, recebendo apoio para ampliar a cooperação em áreas estratégicas. Em discurso no Parlamento Europeu, o primeiro‑ministro canadense, Mark Carney, recebeu a proposta com entusiasmo, afirmando que “Canadá e Europa são ainda mais fortes juntos”. Carney deixou claro que o objetivo não é criar um terceiro bloco rival, mas sim reforçar a resiliência dos mercados abertos e proteger a soberania dos países envolvidos.
A mensagem de von der Leyen foi aplaudida pelos parlamentares europeus, que viram na associação uma oportunidade de aprofundar a integração transatlântica. Ao mesmo tempo, o governo canadense tem respondido a pressões americanas com medidas próprias, incluindo a imposição de tarifas de 27 bilhões de dólares canadenses (cerca de US$ 20 bilhões) sobre produtos americanos, numa tentativa de equilibrar a disputa.
Impactos econômicos e perspectivas futuras
As medidas anunciadas pelos EUA têm potencial de afetar setores críticos tanto na Europa quanto no Canadá. Entre os produtos que podem ser alvo de tarifas e proibições, destacam‑se:
- Laticínios canadenses, como queijo e manteiga
- Motocicletas e peças automotivas
- Grande parte das bebidas alcoólicas
- Móveis e artigos de decoração
- Produtos de papel e celulose
Especialistas alertam que a escalada tarifária pode gerar aumento de preços para consumidores, interrupções nas cadeias de suprimento e perdas de empregos nos três continentes. O comércio bilateral entre EUA e Canadá, que antes era quase livre de barreiras, pode sofrer uma retração de até 10% nos próximos dois anos, segundo projeções de institutos de pesquisa econômica.
Por outro lado, a UE pretende avançar com a associação do Canadá, independentemente das pressões americanas. A Comissão Europeia já sinalizou que continuará a negociar acordos de cooperação em energia limpa e segurança digital, áreas consideradas estratégicas para o futuro da região.
Analistas políticos apontam que a disputa pode servir como um teste de resistência das alianças transatlânticas. Caso Trump mantenha a postura de retaliação, a UE pode buscar alternativas comerciais em outras regiões, como Ásia‑Pacífico, para compensar eventuais perdas. O Canadá, por sua vez, pode aprofundar laços com países do Mercosul e da América Latina, diversificando ainda mais seu mercado de exportação.
Em resumo, a guerra comercial que se desenha entre os Estados Unidos, a União Europeia e o Canadá tem raízes tanto econômicas quanto geopolíticas. Enquanto Trump utiliza a retórica de proteção nacional para justificar tarifas elevadas, a UE e o Canadá defendem a integração como caminho para maior resiliência e inovação. O desenrolar desses embates será decisivo para definir o futuro do comércio internacional nos próximos anos.








