Em 1º de setembro de 2024, o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social do Japão divulgou que o país registrou 107.677 pessoas com 100 anos ou mais, ultrapassando pela primeira vez a marca dos 100 mil centenários. Esse número representa um aumento de 7.914 em relação ao ano anterior e confirma o 56º recorde anual consecutivo de longevidade no arquipélago.
Crescimento histórico da população centenária
O salto demográfico não aconteceu de forma repentina; ele reflete décadas de políticas públicas voltadas ao bem‑estar dos idosos, como a Lei de Assistência Social para Idosos, promulgada em 1963. Naquele ano, o Japão contava apenas 153 centenários, um número quase irrelevante diante dos patamares atuais.
Na década de 1990, o país já havia cruzado a marca dos 10 mil centenários, sinalizando que a combinação de avanços médicos, alimentação equilibrada e um estilo de vida menos estressante estava produzindo resultados concretos. Em 2012, o total chegou a 50 mil, o que representou um crescimento de mais de 300% em apenas 12 anos.
O último decênio intensificou essa tendência, com a população de centenários mais que dobrando entre 2014 e 2024. Essa aceleração está associada a melhorias na prevenção de doenças crônicas, ao aumento da expectativa de vida ao nascer e à expansão dos serviços de cuidados de longo prazo.
Distribuição regional dos centenários
Embora o número total seja impressionante, a concentração de centenários varia consideravelmente entre as províncias japonesas. Algumas regiões apresentam densidades que superam em muito a média nacional, enquanto outras ainda lutam para alcançar patamares semelhantes.
Os dados mais recentes revelam que a província de Shimane, no oeste do país, lidera o ranking com 186,65 centenários por 100 mil habitantes. Essa posição vem se mantendo por 14 anos consecutivos, evidenciando um padrão de longevidade sustentável.
- Shimane: 186,65 centenários por 100 mil habitantes
- Kochi: 169,52 centenários por 100 mil habitantes
- Tottori: 152,48 centenários por 100 mil habitantes
Na extremidade oposta da escala, as províncias de Saitama, Aichi e Osaka apresentam as menores proporções, com 51,27, 57,79 e 60,06 centenários por 100 mil habitantes, respectivamente. Essa disparidade pode estar ligada a fatores como urbanização acelerada, estilos de vida mais sedentários e maior incidência de poluição.
Perfil de gênero e as histórias de vida
As mulheres dominam claramente o cenário dos centenários no Japão, representando 94.298 casos, ou seja, cerca de 88% do total. Essa predominância reflete tendências globais, nas quais a expectativa de vida feminina costuma superar a masculina.
Entre os homens, são 13.379 centenários, número que ainda representa um crescimento significativo em relação às décadas passadas. O homem mais velho do país, Hikaru Kato, de 112 anos, reside em Kumamoto e tem sido destaque em campanhas de saúde pública.
A pessoa mais longeva, Fuyo Kishimoto, com 114 anos, mora em Kyoto e continua a inspirar pesquisadores que estudam os determinantes da longevidade. Sua rotina inclui caminhadas diárias, uma dieta rica em peixe e vegetais, e a prática regular de meditação.
Desafios e perspectivas para a sociedade japonesa
O aumento da população centenária traz à tona questões complexas relacionadas à sustentabilidade dos sistemas de saúde e previdência. O custo de cuidados de longo prazo tem crescido de forma exponencial, exigindo novas estratégias de financiamento.
Além disso, a escassez de cuidadores, agravada pelo envelhecimento da força de trabalho, pressiona o governo a investir em tecnologia assistiva, como robôs de apoio e plataformas de telemedicina. Essas inovações podem aliviar a demanda por mão‑de‑obra humana, ao mesmo tempo em que mantêm a qualidade do atendimento.
Do ponto de vista cultural, a valorização dos idosos permanece um pilar da sociedade japonesa, mas é preciso adaptar tradições a realidades contemporâneas. Programas de inclusão social, atividades comunitárias e oportunidades de voluntariado são essenciais para garantir que os centenários permaneçam ativos e integrados.
Em síntese, o recorde de 107.677 centenários representa não apenas um marco estatístico, mas também um convite à reflexão sobre como as políticas públicas, a ciência médica e os hábitos cotidianos podem convergir para promover uma vida longa e saudável. O Japão, ao liderar esse movimento, oferece um modelo que pode inspirar outras nações a enfrentar os desafios demográficos do futuro.








