Uma pesquisa realizada entre 25 e 30 de junho de 2026 revelou que 64% dos brasileiros que bebem álcool de cinco a sete dias por semana acreditam ter saúde “boa” ou “ótima”. O estudo, conduzido pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com o hub de dados Nexus, entrevistou mais de 2 mil pessoas em todas as unidades da federação.
Perfil do consumo de álcool no país
Dos 2.015 entrevistados, 58% afirmaram não consumir bebidas alcoólicas. Já 30% relataram beber de um a dois dias por semana, e apenas 5% declararam consumo diário ou quase diário, entre cinco e sete dias.
Os participantes foram selecionados por quotas de sexo, idade, condição de emprego, região e tipo de município, garantindo representatividade nacional. A margem de erro da amostra foi de dois pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%.
Percepção de saúde versus realidade
O paradoxo mais marcante foi a alta proporção de consumidores frequentes que se autodeclararam saudáveis. Antonio Antonietto, diretor clínico do A.C.Camargo, destacou que “existe uma dissonância entre o que a pessoa sente agora e o que pode acontecer no futuro”.
Ele reforçou que não há dose segura de álcool para a prevenção de doenças, sobretudo o câncer, e que a sensação de bem‑estar pode mascarar processos patológicos já em curso.
Entre os fumantes, 18% também consideraram sua saúde boa ou ótima, apesar do comprovado risco de câncer de pulmão, DPOC e infarto. Esses dados mostram que a percepção subjetiva não reflete necessariamente a condição objetiva de saúde.
Outros hábitos de risco e alimentação
Além do álcool, a pesquisa apontou que 42% dos entrevistados nunca praticam atividade física, e aqueles que se exercitam o fazem, em média, apenas 2,4 dias por semana. O sedentarismo, junto ao consumo excessivo de álcool e tabaco, forma um conjunto de fatores de risco que se desenvolvem silenciosamente.
Por outro lado, a alimentação mostrou um aspecto positivo: 66% dos participantes relataram consumo de alimentos frescos – frutas, verduras, legumes, ovos e carnes – em seis ou mais dias por semana. Bebidas açucaradas, ultraprocessados, doces e frituras aparecem, em média, em apenas dois dias da semana.
No entanto, barreiras econômicas e de tempo ainda limitam escolhas saudáveis. 29% apontaram o alto preço de carnes frescas, frutas e vegetais como obstáculo, enquanto 21% citaram falta de tempo e cansaço da rotina.
Para a população que recebe até um salário mínimo, o preço impede a alimentação saudável em 40% dos casos, contrastando com 12% entre quem ganha mais de cinco salários mínimos.
Relação entre álcool e câncer
O álcool está associado ao desenvolvimento de pelo menos sete tipos principais de câncer. Entre eles estão:
- Câncer de mama
- Câncer de boca
- Câncer de laringe
- Câncer de faringe
- Câncer de esôfago
- Câncer de fígado
- Câncer colorretal (intestino, cólon e reto)
Essas neoplasias apresentam risco crescente proporcional à quantidade e frequência de consumo alcoólico, reforçando a importância de políticas públicas de redução de danos.
Implicações para políticas de saúde
Victor Piana, CEO do A.C.Camargo, alertou que o maior risco para o brasileiro está no que ele não percebe. Excesso de peso, sedentarismo, tabaco e álcool são fatores que se instauram de forma silenciosa na rotina diária.
Os dados sugerem a necessidade de campanhas de conscientização que abordem não apenas o consumo de álcool, mas também a percepção equivocada de saúde. Estratégias que combinem educação, acesso a alimentos saudáveis e incentivo à prática de exercícios podem mitigar o impacto desses comportamentos.
Em síntese, a pesquisa evidencia que a autopercepção de boa saúde pode ser ilusória quando hábitos de risco são prevalentes. A mensagem central é clara: sentir‑se bem não garante ausência de doenças, e a prevenção deve ser baseada em evidências científicas e não apenas em sensações momentâneas.








