O líder indígena Raoni Metuktire, de 94 anos, foi diagnosticado com um adenocarcinoma agressivo no trato digestório e, a partir de 15 de julho, passou a receber cuidados paliativos. O diagnóstico foi confirmado no Hospital São Paulo, ligado à Unifesp, após a transferência do Hospital e Maternidade Dois Pinheiros, em Sinop (MT). A decisão de optar pelos cuidados paliativos foi tomada pela equipe médica diante de um quadro clínico complexo.
Diagnóstico e Contexto Clínico
Raoni enfrentou nos últimos meses um período delicado de saúde, marcado por uma grave obstrução intestinal provocada pelo tumor. A transferência para o Hospital São Paulo permitiu a realização de exames avançados, como tomografia computadorizada e biópsia, que identificaram um adenocarcinoma pouco diferenciado, um tipo de câncer de difícil tratamento.
As taxas de sobrevida de adenocarcinomas variam conforme o órgão de origem, o estágio da doença e as características moleculares do tumor. No caso de Raoni, o diagnóstico ocorreu em estágio avançado, o que reduz significativamente as opções terapêuticas curativas.
Por que os Cuidados Paliativos Foram a Melhor Opção
O histórico médico do cacique inclui múltiplas comorbidades que aumentam o risco de intervenções invasivas. Entre elas, estão:
- Marcapasso instalado
- Insuficiência cardíaca crônica
- Hipertensão arterial sistêmica
- Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC)
- Hérnia diafragmática traumática crônica
Essas condições tornam cirurgias de grande porte, quimioterapia intensiva ou outras terapias oncológicas de alto risco. Os especialistas explicaram que tais tratamentos poderiam elevar a probabilidade de complicações fatais, sem garantir melhora significativa na qualidade de vida.
Os cuidados paliativos, por sua vez, focam no alívio da dor, no controle de sintomas e na manutenção da autonomia do paciente. Eles permitem que Raoni permaneça próximo à sua família e ao seu povo, falando sua língua e mantendo suas referências culturais, aspectos essenciais para seu bem‑estar emocional.
O Que Significa o Adenocarcinoma Pouco Diferenciado
O termo “adenocarcinoma pouco diferenciado” indica que as células tumorais perderam a maioria das características originais das glândulas de onde surgiram. Essa perda de diferenciação dificulta a identificação do tecido de origem apenas ao microscópio.
O diagnóstico definitivo requer a combinação de exames de imagem – como tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM) e endoscopia – com a análise histopatológica de uma amostra obtida por biópsia. O patologista busca estruturas glandulares anormais e crescimento desorganizado para confirmar o tipo de câncer.
Os adenocarcinomas podem se originar em diversos órgãos que possuem tecido glandular, incluindo:
- Estômago
- Intestino delgado e grosso
- Pâncreas
- Pulmões
- Próstata
- Seios (mamas)
No caso de Raoni, os sintomas iniciais foram dores abdominais persistentes, que evoluíram para uma obstrução intestinal e, posteriormente, para uma hemorragia digestiva grave.
Desdobramentos Recentes e Apoio à Família
Após receber alta em condições estáveis no dia 14 de julho, Raoni retornou para sua casa em Peixoto de Azevedo (MT) no dia seguinte. Entre 30 de julho e 1º de agosto, ele sofreu uma hemorragia digestiva severa, o que exigiu nova internação no Hospital Regional de Peixoto de Azevedo.
O controle da hemorragia foi bem‑sucedido, sem evidência de sangramento ativo por mais de 72 horas, e o quadro voltou a ser considerado regular e estável. Desde então, ele recebe cuidados domiciliares intensivos, com o apoio de quatro técnicos de enfermagem, uma fisioterapeuta, uma nutricionista e supervisão de enfermagem da CASAI de Peixoto de Azevedo, vinculada ao Distrito Sanitário Especial Indígena Kaiapó.
Esses profissionais garantem o manejo da dor, a manutenção da nutrição adequada e a prevenção de complicações secundárias, como infecções de pele e perda de mobilidade. O acompanhamento multidisciplinar também inclui suporte psicológico para a família, que enfrenta a angústia de cuidar de um líder tão simbólico.
Além do aspecto clínico, a escolha pelos cuidados paliativos reflete uma decisão ética e cultural. Manter Raoni próximo de seu povo, em um ambiente familiar e respeitando seus costumes, contribui para a preservação de sua dignidade e para a continuidade de sua liderança simbólica dentro da comunidade indígena.
O Instituto Raoni continua a divulgar atualizações sobre a saúde do cacique, reforçando a importância da solidariedade e do respeito aos direitos dos povos originários. Enquanto a comunidade espera por dias mais tranquilos, a mensagem central permanece: o cuidado humanizado, que prioriza a qualidade de vida, é a estratégia mais adequada diante de um cenário clínico tão complexo.








