Aos 48 anos, a apresentadora Maju Coutinho revelou estar grávida do primeiro filho, e, em junho de 2024, Sabrina Sato, de 45, completou o sexto mês de gestação do segundo bebê. Esses casos, divulgados nas principais redes de comunicação nacional, ilustram que a maternidade tardia está se tornando mais visível no Brasil.
Avanços da medicina reprodutiva
Nas últimas duas décadas, a ciência desenvolveu técnicas que ampliam significativamente as possibilidades de concepção mesmo quando a reserva ovariana está reduzida. A fertilização in vitro (FIV) e o congelamento de óvulos são os pilares desse progresso.
Especialistas apontam que a FIV permite a fertilização do óvulo em laboratório, controlando variáveis que, no organismo, seriam imprevisíveis. Depois, o embrião é transferido para o útero, aumentando as chances de implantação.
O congelamento de óvulos, por sua vez, oferece às mulheres a oportunidade de preservar gametas antes que a qualidade decaia de forma acentuada. A coleta costuma ser recomendada entre os 30 e 35 anos, idade considerada ideal para garantir boa quantidade e viabilidade.
Desafios biológicos da gestação tardia
Apesar das inovações, o envelhecimento natural do sistema reprodutivo não pode ser ignorado. A quantidade de óvulos diminui ao longo da vida, e a qualidade sofre alterações cromossômicas que elevam o risco de anomalias.
Fernanda Polisseni, ginecologista da Associação Brasileira de Reprodução Assistida, explica que os óvulos acumulam danos de fatores como poluição, estresse e medicamentos, comprometendo a capacidade de dividir corretamente os pares de cromossomos.
Essas alterações podem resultar em:
- Implantação difícil do embrião;
- Aumento da taxa de abortos espontâneos;
- Maior probabilidade de síndromes genéticas, como a Síndrome de Down.
Nos homens, embora a produção de espermatozoides continue ao longo da vida, a motilidade e a integridade do DNA também tendem a declinar, influenciando a taxa de sucesso da fertilização.
Técnicas de preservação e fertilização in vitro
O processo de congelamento de óvulos envolve estimulação hormonal, coleta por aspiração e vitrificação, método que evita a formação de cristais de gelo que poderiam danificar as células.
Quando a mulher decide engravidar anos depois, os óvulos descongelados mantêm a “idade biológica” do momento da coleta. Assim, uma mulher que congelou óvulos aos 32 pode, aos 46, utilizar gametas que ainda carregam a qualidade de 32 anos.
Além da FIV tradicional, novas abordagens como a injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI) e a triagem genética pré-implantacional (PGT) ajudam a selecionar embriões livres de alterações cromossômicas, reduzindo riscos para a gestante e o bebê.
Os protocolos mais avançados ainda recomendam avaliação completa da saúde cardiovascular e metabólica da mulher antes de iniciar o tratamento, pois com a idade avançada aumentam as complicações como hipertensão gestacional e diabetes gestacional.
Riscos e considerações para mães acima de 45
Estudos recentes indicam que a taxa de complicações obstétricas cresce consideravelmente após os 40 anos. Entre os principais riscos, destacam‑se:
- Pré‑eclâmpsia e eclâmpsia;
- Parto prematuro;
- Necessidade de cesariana;
- Baixo peso ao nascer.
Por isso, o acompanhamento multidisciplinar torna‑se essencial. Obstetras, endocrinologistas, psicólogos e nutricionistas trabalham em conjunto para garantir que a gestante mantenha um estado de saúde adequado durante todo o trimestre.
Além dos aspectos médicos, há considerações sociais e psicológicas. Mulheres que decidem ter filhos tardios frequentemente enfrentam dúvidas sobre energia para cuidar da criança, suporte familiar e planejamento financeiro a longo prazo.
Entretanto, relatos de mães como Maju Coutinho e Claudia Raia mostram que, com suporte adequado, a experiência pode ser positiva e gratificante, desafiando estereótipos tradicionais sobre idade e maternidade.
Em síntese, a reprodução assistida oferece ferramentas poderosas para contornar parte das limitações impostas pelo relógio biológico, mas não elimina totalmente os desafios inerentes ao envelhecimento reprodutivo. A decisão de engravidar após os 45 anos deve ser tomada com base em informações médicas precisas, avaliação de riscos e planejamento cuidadoso.








