Um boato sobre supostos sequestros de mulheres na chamada “casa das irmãs” gerou pânico em Damasco e em outras regiões da Síria em maio de 2024, levando famílias a buscar refúgio no exterior. O relato de uma professora de matemática que recebeu ameaças na porta de sua casa acabou se tornando símbolo da insegurança que afeta minorias alauítas. O episódio ilustra como desinformação pode transformar medo em decisão de migração.
O caso da professora que fugiu
Laya, mãe de três filhos, vivia em Damasco até ser abordada por um desconhecido que a advertiu sobre as atividades culturais de sua filha. “Você deveria parar com isso. Se não parar, talvez a levemos para a casa das irmãs”, disse o homem, ameaçando a família.
Para as comunidades conservadoras, tocar piano e dançar são comportamentos condenados, e o medo de represálias motivou a decisão de deixar o país. Poucos dias depois, Laya e sua família embarcaram rumo ao Líbano, buscando segurança para seus filhos.
O surgimento do rumor
O termo “casa das irmãs” começou a circular nas redes sociais e em grupos de mensagens em maio de 2024, quando a família de Batoul Alloush relatou o desaparecimento da jovem alauita de 21 anos. Ela reapareceu vestindo trajes religiosos e alegou ter se convertido ao islamismo, alimentando suspeitas de sequestro forçado.
Outros relatos de desaparecimentos de mulheres alauítas surgiram logo em seguida, criando um clima de tensão nas comunidades minoritárias. Psicólogas da ONU, como Reham Suleiman, confirmaram que há casos de sequestro motivados por resgate, vingança ou casamento forçado.
- Desaparecimentos relatados: entre 40 e 60 casos.
- Motivações possíveis: resgate, coerção religiosa, casamento forçado.
- Fontes de informação: famílias, ONGs, mídia internacional.
Investigações oficiais e desmentidos
Autoridades sírias negaram a existência de instituições com o nome “casa das irmãs”. A porta‑voz Hind Kabawat afirmou que nenhum centro desse tipo possui licença e que, se existirem, serão fechados.
Agências de checagem sírias, como a Verify‑Sy, identificaram que as imagens do suposto prédio foram geradas por inteligência artificial, demonstrando a fragilidade da informação que circula online.
Mesmo com os desmentidos, o fluxo constante de alegações não comprovadas sobre sequestros, assassinatos e tortura continua, alimentando o clima de medo entre as minorias.
Consequências para a população alauíta
A insegurança provocada pelos boatos tem levado muitas famílias alauítas a buscar refúgio em países vizinhos, especialmente no Líbano e na Turquia. O êxodo tem impactos sociais e econômicos, pois profissionais qualificados, como professores e médicos, deixam o país.
Organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional, alertam que a falta de investigações aprofundadas pode perpetuar violações e dificultar a responsabilização dos responsáveis.
Enquanto isso, protestos nas ruas de Damasco denunciam tanto a violência contra civis quanto a impunidade das forças de segurança da nova administração, intensificando o clima de instabilidade.
Em resumo, o rumor da “casa das irmãs” demonstra como a desinformação pode transformar medo em migração forçada, afetando diretamente a vida de milhares de sírios que já vivem sob condições precárias.








