O governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, tem adotado uma política externa que privilegia aliados políticos em detrimento da diplomacia tradicional, gerando atritos com o Brasil. A crise se intensificou em agosto de 2025, quando o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, foi revogado. O episódio ocorre em meio a uma série de mudanças estruturais no Departamento de Estado americano.
Política externa transacional de Trump
Desde o início de seu segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025, Trump tem promovido uma agenda descrita por analistas como “transacional”, focada em ganhos imediatos para os EUA. Essa postura se reflete em guerras tarifárias, tentativas de interferência em eleições estrangeiras e pressão sobre políticas internas de outros países.
O presidente argumenta que essas medidas são necessárias para proteger os interesses norte‑americanos e reforçar o lema “America First”. Contudo, críticos apontam que a estratégia sacrifica alianças de longo prazo e enfraquece a credibilidade dos Estados Unidos no cenário internacional.
Desgaste no Corpo Diplomático
Segundo a American Foreign Service Association (AFSA), cerca de 3 mil diplomatas – quase 22% do quadro total de 14 mil – deixaram o serviço nos últimos 18 meses, seja por demissão, aposentadoria ou expulsão. Esses profissionais carregam décadas de experiência, domínio de línguas estrangeiras e conhecimento profundo das nuances da política externa.
Tommy Pigott, porta‑voz do Departamento de Estado, justificou as demissões como parte de uma “reestruturação histórica”. Ele afirma que as mudanças foram feitas em conformidade com a lei e visam tornar a diplomacia mais ágil e alinhada ao “America First”.
Para a AFSA, porém, há indícios claros de politização do serviço diplomático, com a substituição de carreiristas por aliados políticos do presidente.
Nomeações políticas em ritmo acelerado
Até 10 de agosto de 2025, dos 113 indicados por Trump para cargos de embaixador, apenas 20 são diplomatas de carreira – menos de 18% das nomeações. Esse percentual representa o menor nível de indicações de profissionais experientes desde a década de 1970.
Historicamente, administrações anteriores mantiveram cerca de 60% ou mais de indicações de diplomatas de carreira, mesmo quando nomearam doadores ou aliados políticos para alguns postos. A diferença atual reflete a estratégia de Trump de consolidar uma equipe que compartilhe sua visão “America First”.
- 20 diplomatas de carreira indicados;
- 93 indicados políticos;
- 113 indicações ao todo.
Além das nomeações, 97 dos 196 postos de embaixador permanecem sem titular confirmado, segundo a AFSA. Em comparação, o governo anterior de Joe Biden deixava 55 vagas sem indicação.
Impactos na relação Brasil‑Estados Unidos
A decisão de revogar o visto da embaixadora brasileira intensificou a percepção de que Washington está adotando uma postura mais agressiva e menos conciliadora. O Brasil, que historicamente mantém laços estreitos com os EUA, agora avalia que o país “queimou etapas” ao indicar Daniel Perez, presidente da Câmara dos Representantes da Flórida, para o cargo de embaixador.
Daniel Perez, que exerce mandato como deputado da Flórida desde 2017, tem forte ligação política com o presidente e é visto como um aliado estratégico. Sua indicação, no entanto, é recebida com ceticismo pelos diplomatas brasileiros, que temem que a política externa dos EUA se torne ainda mais unilateral.
O cenário atual coloca em risco a cooperação em áreas cruciais como comércio, segurança regional e questões ambientais. A falta de um diálogo diplomático sólido pode gerar atrasos em negociações comerciais e reduzir a eficácia de iniciativas conjuntas de combate ao narcotráfico.
Especialistas sugerem que o Brasil pode buscar diversificar suas parcerias internacionais, reforçando laços com a União Europeia, a China e outros atores regionais, como forma de mitigar a dependência dos Estados Unidos.
Perspectivas e possíveis desdobramentos
O futuro da relação bilateral dependerá, em grande parte, da capacidade de Washington equilibrar sua agenda política interna com as exigências de uma diplomacia eficaz. Caso as nomeações políticas continuem a substituir profissionais experientes, a qualidade das negociações pode deteriorar ainda mais.
Por outro lado, a pressão interna de congressistas, grupos de defesa dos direitos humanos e organizações de negócios pode forçar o governo a reconsiderar a estratégia de nomeações. O Senado dos EUA tem papel crucial na confirmação dos indicados, podendo bloquear nomeações que considerem inadequadas.
Enquanto isso, o Brasil mantém sua postura de observação cautelosa, buscando preservar os interesses nacionais sem abrir mão de uma relação estratégica com o maior parceiro comercial da América Latina.
Em resumo, a política externa de Trump, marcada por decisões rápidas e foco em aliados políticos, está reconfigurando o panorama diplomático global. O Brasil, ao avaliar as consequências dessas mudanças, enfrenta o desafio de adaptar sua estratégia externa para garantir segurança, prosperidade e influência na região.








