O ex-deputado Eduardo Bolsonaro orientou, em março de 2023, a administração de recursos milionários destinados ao filme “Dark Horse” em solo americano. As instruções foram enviadas ao publicitário Thiago Miranda, ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e surgiram em documentos cujo sigilo foi revogado pelo ministro André Mendonça, do STF.
Contexto da investigação
A cinebiografia “Dark Horse” retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro e tornou-se foco de um inquérito que chegou a colocar o candidato do PL à Presidência como investigado nas vésperas do primeiro turno, em 4 de outubro. Os procuradores suspeitam que parte dos 24 a 25 milhões de dólares estimados para a produção tenha sido desviada para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Documentos judiciais revelam que, em 21 de março de 2023, Thiago Miranda encaminhou a Daniel Vorcaro os conselhos fornecidos por Eduardo sobre a melhor forma de movimentar a quantia. O relatório, conhecido como “Zero Três”, traz recomendações detalhadas sobre a velocidade e o volume das remessas, bem como indicações de contatos que poderiam facilitar o processo.
O fundo Havengate Development Fund, dirigido por Altieris Santana, recebeu recursos da Entre Investimentos para financiar o filme. Santana, além de ser diretor do fundo, atuava como corretor e teria fornecido informações adicionais em reuniões presenciais, conforme apontado nos documentos.
Detalhes das instruções de Eduardo Bolsonaro
Eduardo enfatizou que o ideal seria manter os recursos já nos Estados Unidos, evitando transferências complexas entre países. Segundo ele, “dos EUA para os EUA é tranquilo”, o que reduziria atrasos e custos operacionais.
Ele alertou que, caso a empresa brasileira responsável pela remessa não disponha de um orçamento robusto – semelhante ao exemplo de 25 milhões de dólares citado – o processo poderia ser fragmentado, gerando um atraso de aproximadamente seis meses.
Em mensagem escrita, Eduardo sugeriu: “Solução: enviar o máximo possível alinda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”. Essa frase indica a busca por uma estratégia de envio rápido e em grande volume, utilizando os canais já estabelecidos.
- Enviar o máximo de recursos de uma só vez;
- Utilizar o remetente já cadastrado no sistema;
- Contar com o apoio de Altieris Santana para eventuais dúvidas;
- Evitar a necessidade de múltiplas remessas menores.
Além disso, Eduardo apontou que a falta de um orçamento adequado para a empresa brasileira poderia obrigar a dividir o pagamento em várias etapas, o que, segundo seus cálculos, atrasaria o desembolso em cerca de seis meses.
Implicações políticas e jurídicas
O empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”, firmou acordo de delação premiada e confirmou repasses ao Havengate Development Fund para custear o filme. Essa revelação ampliou o escopo da investigação, envolvendo outros membros da família Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro, senador e irmão de Eduardo, também está sob investigação da Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e organização criminosa relacionadas à arrecadação de recursos para a obra audiovisual.
Os investigadores temem que a estratégia de envio de recursos descrita por Eduardo possa configurar crime de evasão de divisas, já que o fluxo de dinheiro seria mascarado por empresas de fachada e fundos offshore.
Se comprovado, o esquema pode resultar em processos criminais tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, além de sanções financeiras e bloqueio de ativos vinculados aos envolvidos.
A revelação das instruções de Eduardo Bolsonaro também reacendeu o debate sobre a influência de recursos externos nas campanhas eleitorais brasileiras, especialmente em um cenário de polarização política.
Especialistas em direito internacional alertam que a cooperação entre autoridades americanas e brasileiras será crucial para desmantelar possíveis redes de lavagem de dinheiro e garantir a responsabilização dos agentes.
Enquanto isso, a produção do filme “Dark Horse” permanece em fase de pré-produção, com dúvidas sobre o financiamento definitivo e a viabilidade de concluir a obra sem maiores entraves legais.
O caso continua a evoluir nos tribunais, e novas peças processuais podem trazer à tona detalhes adicionais sobre a origem dos recursos e a extensão da participação de membros da família Bolsonaro.








