Em novembro de 2025, o conglomerado Master, liderado por Daniel Vorcaro, foi liquidado após a prisão de seu fundador, revelando uma rede de cobranças milionárias que incluía impostos atrasados, obras de arte e jatinhos privados. As conversas interceptadas entre Vorcaro e seu cunhado Fabiano Zettel mostraram como o empresário administrava pagamentos e calotes, envolvendo autoridades e empresários influentes.
O cenário de dívidas e luxo
Os registros obtidos pela Polícia Federal mostram que, por trás de festas extravagantes e da frota de helicópteros disponibilizada a autoridades, havia um complexo esquema de pagamentos que mesclava despesas legais, como impostos e taxas de condomínio, com gastos clandestinos, como remunerações a grupos de intimidação. Essa combinação criava um fluxo de caixa irregular, que acabou se tornando insustentável quando o banco Master entrou em liquidação.
O empresário não mantinha uma rotina de pagamento pontual. Mensalmente, Zettel recebia instruções sobre quais contas deveriam ser quitadas e quais poderiam ser deixadas em aberto. Essa prática gerava uma lista de credores em constante atualização, refletindo tanto compromissos formais quanto acordos sombrios.
Mensagens que revelam a estratégia de pagamentos
Nas trocas de mensagens, Zettel organizava as pendências em duas colunas: “que estão me cobrando” e “não pagamos”. Entre os nomes que apareciam na primeira coluna estava Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, que recebeu ao menos R$ 24 milhões do banqueiro. Essa divisão deixava claro que alguns débitos eram inevitáveis, enquanto outros eram deliberadamente ignorados.
Além das instruções, Zettel enviava tabelas detalhadas contendo despesas mensais previstas para 2025. Essas tabelas incluíam valores de quase R$ 2,5 milhões em impostos atrasados, R$ 6 milhões para a reforma de um apartamento no bairro dos Jardins, em São Paulo, e R$ 20 milhões destinados à marca de bem‑estar Desinchá. Cada item era acompanhado de observações sobre a prioridade de pagamento.
Os principais credores e valores envolvidos
Os documentos divulgados pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, permitem identificar os credores mais relevantes e os montantes que aguardavam pagamento. Abaixo, segue a lista dos principais destinatários:
- Impostos atrasados: quase R$ 2,5 milhões.
- Reforma do apartamento nos Jardins (SP): R$ 6 milhões.
- Desinchá (marca de produtos de bem‑estar): R$ 20 milhões.
- OakBerry (rede de lojas de açaí): R$ 20 milhões.
- Galeria de arte Almeida & Dale: R$ 45 milhões.
- Jato privado da frota Master: R$ 5 milhões.
- Repasses ao escritório Barci de Moraes (esposa do ministro Alexandre de Moraes): valores não especificados, mas recorrentes.
Além desses, o ex‑ministro das Comunicações, Fábio Faria, também cobrou Zettel pelo uso de um dos aviões da frota, demonstrando que a lista de credores incluía figuras políticas de alto escalão.
Impactos da liquidação e perspectivas
A liquidação do banco Master, concluída em novembro de 2025, deixou um rastro de credores sem pagamento. Não há clareza sobre quais das dívidas foram quitadas antes da falência e quais permaneceram pendentes, ampliando a lista de credores que agora dependem de processos judiciais para receber seus créditos.
Especialistas apontam que a falta de transparência nas contas do conglomerado dificulta a recuperação dos valores. Enquanto alguns credores podem conseguir acordos com os liquidatários, outros, especialmente aqueles ligados a pagamentos ilícitos, podem enfrentar barreiras legais mais complexas.
O caso Vorcaro também levantou discussões sobre a eficácia das investigações da Polícia Federal e a necessidade de maior rigor na fiscalização de grandes conglomerados financeiros. A divulgação das conversas entre Vorcaro e Zettel expôs como a combinação de poder econômico e conexões políticas pode gerar um ambiente propício à impunidade.
Para o público em geral, o desfecho do Master serve como um alerta sobre os riscos de investimentos em empresas que operam com estruturas opacas. A expectativa é que o judiciário brasileiro continue analisando detalhadamente os documentos revelados, a fim de garantir que os credores legítimos recebam o que lhes é devido.








