Em documento divulgado nesta quinta-feira (10), a Polícia Federal (PF) detalhou as movimentações de Daniel Vorcaro nos dias que antecederam a Operação Compliance Zero, que culminou com sua prisão. O ex‑banqueiro do Banco Master teria sido avisado da ação policial e organizou uma viagem ao exterior na noite anterior, indicando clara intenção de fuga.
Antecedentes da Operação Compliance Zero
A PF iniciou a investigação do Banco Master após denúncias de irregularidades financeiras e lavagem de dinheiro. O caso ganhou força quando o Ministério Público Federal solicitou medidas cautelares para impedir a dilapidação de ativos. Em 17 de novembro de 2025, a operação foi deflagrada, com mandados de busca e prisão emitidos contra Vorvor e outros executivos.
Segundo o relatório, Vorcaro recebeu informações sobre a operação antes de sua execução. A polícia afirma que o banqueiro se utilizou de servidores do Banco Central, que recebiam vantagens indevidas, para marcar uma reunião virtual no dia imediatamente anterior ao cumprimento dos mandados.
Essa reunião foi apontada como um dos principais indícios de que Vorcaro já sabia que a PF estava prestes a agir, reforçando a tese de tentativa de fuga. O documento da PF, cuja restrição foi removida na noite de 10 de setembro, traz gravações, e‑mails e mensagens que corroboram a narrativa.
A fuga planejada e as evidências da PF
Com base nas informações obtidas, a PF descreve que Vorcaro organizou uma viagem para a Europa em um avião particular que partiria do Aeroporto de Guarulhos. A partida estava marcada para a noite imediatamente anterior ao cumprimento dos mandados de prisão, o que, segundo os investigadores, “não pode ser mera coincidência”.
O relatório destaca ainda que, ao perceber a iminente ação policial, Vorcaro tentou usar sua influência sobre funcionários do Banco Central para obter documentos que facilitassem sua saída do país. Essa estratégia incluiu a solicitação de autorizações de voo e a manipulação de registros bancários.
- Reunião virtual com servidores do Banco Central – 16/11/2025
- Planejamento da viagem internacional – 17/11/2025, noite
- Mandados de busca e prisão emitidos – 17/11/2025, manhã
Quando a PF tentou impedir a fuga, Vorcaro foi interceptado no aeroporto de Guarulhos e detido ao tentar embarcar. A prisão ocorreu antes que o avião decolasse, confirmando a suspeita de tentativa de fuga.
Além das provas documentais, o relatório menciona uma troca de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e Vorcaro, na qual o ex‑banqueiro discutia a possibilidade de a PF lançar uma operação contra ele. Esse diálogo foi incluído no dossiê enviado ao STF e teve seu sigilo retirado pelo ministro André Mendonça em 1º de setembro.
Desdobramentos judiciais e novas prisões
Após a primeira prisão, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF‑1) decidiu, cerca de dez dias depois, pela soltura de Vorcaro e de quatro outros executivos do Banco Master. O argumento central foi o conteúdo da reunião com o Banco Central, que, segundo a defesa, indicaria falta de provas concretas de crime.
No entanto, a PF utilizou as informações do relatório para fundamentar um novo pedido de prisão preventiva, apresentado em 27 de fevereiro de 2026. O pedido foi aceito, e Vorcaro foi novamente detido em março de 2026, desta vez sem possibilidade de liberdade provisória.
O ministro André Mendonça, ao levantar o sigilo das investigações, atendeu a um pedido do presidente do STF, Edson Fachin, permitindo que a imprensa e o público tenham acesso aos inquéritos, reclamações e petições vinculados ao “caso Master”. Essa medida aumentou a transparência do processo e intensificou o debate sobre a atuação de grandes bancos no sistema financeiro nacional.
Com a divulgação dos documentos, especialistas em direito bancário apontam que o caso pode servir de precedentes para futuras ações de combate à lavagem de dinheiro e à corrupção no setor privado. A expectativa é que outras instituições financeiras passem a adotar medidas de compliance mais rigorosas, evitando práticas semelhantes às identificadas no Banco Master.
Enquanto isso, o ex‑banqueiro permanece sob custódia, aguardando julgamento. A defesa tem recorrido a recursos que contestam a legalidade das provas obtidas, mas a PF mantém que o conjunto de evidências – incluindo a viagem planejada, a reunião com servidores do Banco Central e as mensagens com autoridades do STF – demonstra claramente a intenção de fugir da justiça.








