Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump pode enfrentar um novo processo de impeachment após a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato realizadas em 4 de novembro de 2022, que garantiram a maioria ao partido no Congresso. O cenário político mudou drasticamente em Washington, onde o controle da Câmara dos Representantes e do Senado passou a ser exercido por opositores ao mandatário.
Contexto das eleições de meio de mandato
As chamadas midterms são eleições legislativas que ocorrem no meio do mandato presidencial e costumam servir de termômetro para a popularidade do chefe de Estado. Em 2022, os democratas conquistaram 222 cadeiras na Câmara dos Representantes, superando a bancada republicana, e ampliaram sua presença no Senado, passando de 48 para até 56 assentos, dependendo de contagens finais.
Essa virada deu ao partido de Joe Biden a capacidade de conduzir a agenda legislativa sem depender de alianças com a minoria republicana. Para Trump, que ainda mantém forte influência dentro do Partido Republicano, o novo Congresso representa um obstáculo significativo para a defesa de políticas alinhadas ao seu legado.
Analistas políticos apontam que a maioria democrata na Câmara pode abrir caminho para a apresentação de novos artigos de impeachment contra o ex‑presidente, ainda que a probabilidade de condenação no Senado permaneça baixa. O motivo principal é que, para remover um presidente, é necessário que dois terços dos senadores (67 votos) votem a favor da condenação.
Impeachment: histórico e possibilidades atuais
Durante seu primeiro mandato (2017‑2021), Trump foi submetido a dois processos de impeachment na Câmara dos Representantes. O primeiro, em 2019, tratou de um suposto pedido de interferência na Ucrânia; o segundo, em 2021, abordou os eventos do ataque ao Capitólio em 6 de janeiro. Ambos foram levados ao Senado, onde o presidente foi absolvido.
O professor de Ciência Política Carlos Gustavo Poggio, do Berea College, ressalta que a maioria simples na Câmara não é suficiente para afastar um presidente. “É preciso que haja uma crise profunda e uma deterioração drástica da popularidade do presidente para que o Senado, que exige dois terços dos votos, decida condená‑lo”, explica.
Para que um novo processo de impeachment avance, três etapas principais devem ser seguidas:
- Redação dos artigos de impeachment: deputados elaboram as acusações contra o presidente.
- Votação na Câmara dos Representantes: se a maioria simples (218 dos 435) aprovar, o presidente é formalmente impeachado.
- Julgamento no Senado: os senadores analisam os artigos; são necessários 67 votos (dois terços) para a condenação e remoção do cargo.
Até o momento, nenhum presidente dos EUA foi removido por impeachment. O caso mais próximo foi o de Richard Nixon, que renunciou em 1974 antes que a Câmara votasse formalmente. Andrew Johnson (1868) e Bill Clinton (1999) foram aprovados na Câmara, mas absolvidos no Senado.
O cientista político Maurício Santoro, da UERJ, destaca que, mesmo com a maioria democrata no Senado, ainda seria preciso apoio de senadores republicanos para alcançar os 67 votos necessários. “Os democratas têm 54 cadeiras confirmadas e podem chegar a 56, mas ainda faltariam dezenas de votos republicanos”, alerta.
Desafios políticos para um novo processo
Mesmo que a Câmara abra um novo processo de impeachment contra Trump, as probabilidades de condenação permanecem reduzidas. A maioria republicana no Senado ainda controla a bancada, e a maioria dos senadores tende a evitar decisões que possam gerar instabilidade política.
A colunista Sandra Cohen, do G1, afirma que um terceiro pedido de impeachment não está descartado, mas seria precipitado. “Sem uma crise que mobilize a opinião pública e sem apoio bipartidário no Senado, o processo corre o risco de se tornar apenas um gesto simbólico”, comenta.
Além do aspecto institucional, há fatores estratégicos. Muitos republicanos ainda veem em Trump um líder capaz de mobilizar a base eleitoral nas próximas eleições. Condená‑lo poderia enfraquecer o partido e abrir espaço para candidatos menos alinhados ao antigo presidente.
Por outro lado, os democratas podem usar a ameaça de impeachment como ferramenta de pressão para obter concessões legislativas, como reformas eleitorais ou mudanças nas políticas de saúde. O simples fato de abrir o processo pode gerar debates na mídia e influenciar a agenda política.
Em resumo, a combinação de um Congresso dominado pelos democratas, a história de dois impeachments anteriores e a necessidade de maioria qualificada no Senado cria um cenário complexo. Enquanto a Câmara tem condições de iniciar o procedimento, a condenação efetiva de Trump ainda parece distante.
O futuro político de Donald Trump dependerá, portanto, não apenas da vontade dos legisladores, mas também da evolução da opinião pública, das próximas eleições e da capacidade dos partidos de negociar alianças dentro de um Senado historicamente dividido.








