Na manhã da última terça‑feira (3 de outubro), o cantor Marlon Brendon Coelho, conhecido como MC Poze do Rodo, não compareceu à Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV) para prestar o depoimento exigido por uma denúncia de estupro contra uma adolescente de 16 anos. O fato ocorreu em uma festa na residência do artista, localizada no bairro do Recreio dos Bandeirantes, zona sudoeste do Rio de Janeiro, no fim de setembro.
Denúncia e circunstâncias do suposto crime
A adolescente, que preferiu manter o anonimato, relatou que foi convidada para a celebração na casa de Poze e que, ao chegar, recebeu drogas oferecidas pelo próprio cantor. Segundo seu relato, o consumo das substâncias a deixou em estado de vulnerabilidade, impossibilitando-a de tomar decisões plenamente conscientes.
Conforme o depoimento formalizado na DCAV, a jovem teria sido conduzida a um quarto onde ocorreu a relação sexual. Ela afirma que, antes do ato, solicitou a utilização de preservativo, mas que o artista teria ignorado a exigência, avançando de forma forçada.
Dois dias após o episódio, a mesma adolescente contou que recebeu um novo convite para retornar à residência de Poze. Ao chegar, foi obrigatória a ingestão de medicamentos que, segundo ela, visavam mantê‑la sob controle e impedir que falasse sobre o ocorrido.
Além da pressão farmacológica, a jovem relata que teve o celular retido pelo cantor e que recebeu ameaças de violência caso decidisse denunciar ou buscar ajuda. Essas alegações foram confirmadas pela advogada da vítima, Daiana Andrade, que acompanha o caso desde o início.
A adolescente foi submetida a exames periciais no Instituto Médico‑Legal (IML), que coletaram provas biológicas e registraram sinais de trauma físico. A defesa da vítima, por meio de sua advogada, já solicitou a concessão de medidas protetivas para garantir a segurança da jovem durante o andamento da investigação.
Repercussão nas redes e posicionamento de Poze
Logo após a divulgação da denúncia, Poze publicou um vídeo nas suas redes sociais negando as acusações e afirmando que se tratava de uma tentativa de difamação. No mesmo material, o cantor alegou que jamais teria forçado a jovem a manter relações sexuais sem consentimento.
A comunidade online reagiu de forma polarizada. Enquanto parte dos seguidores do artista manifestou apoio incondicional, outros usuários exigiram que ele fosse responsabilizado e comparecesse à delegacia para esclarecer os fatos.
Especialistas em comunicação digital apontam que a estratégia de resposta imediata nas redes pode ser vista como tentativa de controlar a narrativa, mas também pode gerar maior exposição e aprofundar a crise de imagem. Em entrevistas à imprensa, Poze reiterou que está disposto a colaborar, desde que tenha acesso a todo o material probatório.
Em paralelo, organizações de defesa dos direitos da mulher e da infância emitiram comunicados pedindo que as autoridades tratassem o caso com a máxima seriedade, ressaltando a importância de proteger menores de situações de vulnerabilidade e abuso.
Defesa legal e ausência na delegacia
O advogado de Poze, Fernando Henrique Cardoso, divulgou uma nota oficial explicando a ausência do cliente na DCAV. Segundo o profissional, a defesa ainda não recebeu o acesso integral aos autos da investigação, em especial ao depoimento da adolescente, que ainda está sob sigilo judicial.
O pedido de consulta completa aos documentos foi protocolado na semana anterior ao comparecimento previsto. Até a data do depoimento, apenas fragmentos dos autos foram disponibilizados ao escritório, o que, segundo o advogado, inviabiliza a preparação de uma resposta adequada.
Cardoso também destacou que a estratégia jurídica adotada visa garantir o direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa, princípios basilares do ordenamento jurídico brasileiro. Ele assegurou que, assim que a documentação completa estiver em mãos, o cantor comparecerá à delegacia para prestar esclarecimentos.
Além da questão documental, a defesa ressalta que a acusação ainda não foi formalmente concluída, sendo necessário aguardar o parecer do Ministério Público antes de qualquer medida coercitiva definitiva.
O advogado ainda informou que a família da vítima recebeu a notificação para comparecer ao IML, onde foram realizados exames que, até o momento, não foram divulgados publicamente, preservando o sigilo do processo.
Próximos passos e implicações jurídicas
O caso segue em fase de investigação, com a DCAV responsável por coordenar as diligências e encaminhar o relatório ao Ministério Público. Caso a denúncia seja considerada procedente, o Ministério Público poderá oferecer denúncia formal contra Poze, o que pode culminar em processo criminal.
Enquanto isso, o juiz responsável pode conceder ou manter medidas protetivas, como o afastamento do acusado do convívio com a vítima, a proibição de contato direto e a restrição de acesso a dispositivos eletrônicos da adolescente.
Para esclarecer os procedimentos que ainda serão seguidos, apresentamos a seguir os principais marcos do processo:
- 1. Análise completa dos autos pela defesa e pelo Ministério Público.
- 2. Realização de nova oitiva da adolescente, se necessário, sob proteção judicial.
- 3. Emissão de parecer técnico do IML sobre os exames periciais.
- 4. Decisão do juiz sobre a continuidade ou arquivamento da investigação.
- 5. Eventual oferecimento de denúncia e início da fase processual criminal.
É importante observar que, mesmo que a denúncia seja aceita, o réu tem direito a recorrer de todas as decisões, o que pode prolongar o andamento do caso por vários meses ou até anos.
Por fim, o caso traz à tona a discussão sobre a necessidade de políticas públicas mais eficazes de prevenção ao abuso sexual de menores, bem como a importância de mecanismos de denúncia que garantam a segurança e o anonimato das vítimas.








