A ex‑deputada federal Carla Zambelli começou a solicitar doações mensais de R$ 50 para se manter na Itália, onde está desde maio de 2025, enquanto aguarda decisões judiciais sobre sua extradição ao Brasil. O pedido foi divulgado em vídeo nas redes sociais na segunda‑feira, 2 de outubro de 2026, e inclui a promessa de enviar relatos exclusivos sobre a experiência de prisão que vivenciou em Roma.
Motivações e contexto da fuga
Zambelli foi condenada a dez anos de prisão em regime fechado pelo Supremo Tribunal Federal, por invadir sistemas digitais do Conselho Nacional de Justiça. A decisão judicial veio após investigação que apontou a ex‑parlamentar como autora intelectual da invasão que permitiu a inserção de documentos falsos, inclusive um mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes.
Em maio de 2025, a então deputada deixou o Brasil e se instalou na Itália, alegando que não teria condições de cumprir a pena no país de origem. A fuga coincidiu com o início de um processo de extradição que ainda não havia sido concluído pelas autoridades italianas.
Segundo a própria Zambelli, a falta de acesso a serviços bancários tem sido um obstáculo central. Ela afirma que nenhum banco, nem mesmo digital, aceita abrir conta‑corrente em seu nome, devido à inclusão de seu nome na lista da Interpol por suposto crime de invasão com prejuízo financeiro.
Além da barreira bancária, a ex‑deputada relata dificuldades para encontrar trabalho formal na Itália, pois sua condenação no Brasil gera restrições em processos de visto e autorização de residência. Por isso, recorre ao apoio de simpatizantes para custear despesas básicas como moradia, alimentação e custos de comunicação.
Como funciona a comunidade de doadores
Em um vídeo publicado nas redes sociais, Zambelli explicou que criou uma comunidade virtual onde os apoiadores podem se inscrever mediante pagamento de R$ 50 por mês. O valor seria destinado a cobrir suas despesas diárias e garantir que ela permaneça na Itália até que a situação legal seja resolvida.
Os participantes da comunidade receberiam conteúdos exclusivos, que variam entre análises políticas, dicas de desenvolvimento pessoal e relatos detalhados da vida na prisão italiana. Ela garante que esses materiais serão enviados regularmente por meio de plataformas digitais.
Para tornar a proposta mais atrativa, Zambelli destacou que os relatos sobre a prisão incluem lições aprendidas, estratégias de sobrevivência e reflexões sobre o sistema penitenciário europeu. Ela acredita que essas informações podem ser úteis para quem enfrenta desafios pessoais ou profissionais.
Os interessados podem se inscrever através de um link disponibilizado na descrição do vídeo. O processo de pagamento seria realizado por meio de serviços de transferência internacional que não exigem conta bancária local, como carteiras digitais ou criptomoedas.
Embora a iniciativa tenha gerado críticas, Zambelli afirma que está disposta a oferecer transparência total, disponibilizando comprovantes de gastos e atualizações mensais sobre sua situação financeira.
Detalhes das condenações e processos
A sentença de dez anos de prisão por invasão de sistemas do CNJ foi acompanhada de multa de 2 milhões de reais por danos morais, a ser paga em conjunto com o hacker Walter Delgatti Neto. Além disso, Zambelli perdeu o mandato e ficou inelegível por oito anos, conforme decisão da Câmara dos Deputados.
Em paralelo, ela foi condenada a mais cinco anos e três meses de prisão em regime semiaberto por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal. O caso decorreu de um incidente em que a ex‑deputada apontou uma arma para um eleitor nas ruas de São Paulo, após divergências políticas.
As condenações resultaram em multa de 400 salários‑mínimos, valor que foi atualizado conforme a legislação vigente na época dos fatos, em 2022. Todos os recursos foram esgotados, consolidando as penas.
Quanto ao pedido de extradição, a Corte de Apelação de Roma adiou a audiência para 24 de novembro de 2026. A defesa alegou necessidade de tempo adicional para analisar documentos enviados pelo governo brasileiro sobre condições de saúde e do sistema prisional no Brasil.
- Invasão de sistemas do CNJ (10 anos de prisão)
- Porta ilegal de arma de fogo e constrangimento (5 anos e 3 meses)
- Indenização por danos morais (R$ 2 milhões)
- Multa de 400 salários‑mínimos
- Perda do mandato e inelegibilidade por oito anos
Essas condenações foram amplamente divulgadas pela imprensa e geraram debates sobre a atuação de políticos de extrema direita no Brasil. A defesa de Zambelli sustenta que as decisões foram motivadas por perseguição política.
Próximos passos e reações
Com a audiência de extradição marcada para o final de 2026, Zambelli tem buscado mobilizar sua base de apoiadores para garantir recursos financeiros até lá. Ela enfatiza que, sem a ajuda dos doadores, não conseguirá permanecer na Itália nem arcar com despesas básicas.
Organizações de direitos humanos criticaram a estratégia de arrecadação, apontando que a prática pode configurar exploração de seguidores vulneráveis. Por outro lado, grupos alinhados ao ex‑presidente Jair Bolsonaro elogiaram a iniciativa como demonstração de solidariedade.
Nas redes sociais, a campanha tem gerado tanto apoio quanto forte oposição. Comentários de usuários variam entre elogios à coragem de Zambelli e denúncias de fraude ou tentativa de lavagem de dinheiro.
Especialistas em direito internacional alertam que, caso a extradição seja deferida, Zambelli poderá ser presa imediatamente ao desembarque no Brasil, o que poderia inviabilizar a continuidade da comunidade de doadores.
Enquanto isso, a ex‑deputada mantém contato frequente com advogados e representantes diplomáticos, buscando alternativas jurídicas que lhe permitam permanecer na Itália ou, ao menos, garantir condições dignas de vida durante o processo.








