No domingo, 30 de outubro de 2024, mais de cem pessoas se reuniram na Igreja Matriz de Guarulhos para reivindicar o respeito à vida e aos direitos dos povos indígenas. O ato contou com a presença de lideranças do povo Puri, coletivos sociais e jovens ativistas, marcando um momento histórico de resistência na cidade.
Histórico da Igreja Matriz e sua ligação com os povos originários
A Igreja Matriz, originalmente a primeira capela jesuíta da região, foi erguida em 1560 com pau‑a‑pique e cipó, sob a mão dos próprios indígenas que habitavam o aldeamento de Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos. Essa construção serviu como ponto central para a catequização forçada dos povos originários, marcando o início de um processo de imposição religiosa.
Em 1685, a capela recebeu o status de paróquia e, entre 1741 e 1761, o edifício atual foi edificado em taipa de pilão, técnica que utiliza terra úmida compactada dentro de moldes de madeira ou metal. Essa técnica milenar evidencia a presença indígena na própria estrutura da construção.
Com a criação da Diocese de Guarulhos, em 1981, a igreja foi elevada à condição de catedral, consolidando seu papel como símbolo de poder e autoridade religiosa na região. Contudo, para o povo Puri, o local também representa um espaço de memória e resistência que atravessa quatro séculos e meio.
O ato de 2024: resistência, simbolismo e união dos movimentos sociais
Day Puri, liderança do povo Puri, destacou que o maracá erguido em frente à igreja simboliza 466 anos de luta por liberdade e reconhecimento. “De 1560 até hoje são 466 anos que gritamos por liberdade, sem retaliações, sem trabalho escravo”, afirmou, enfatizando a importância de cantar e dançar na frente do templo.
Durante a manifestação, cantos ancestrais foram entoados, danças realizadas e o maracá batido, invocando os ancestrais para o espaço contemporâneo. O ato reforçou a ideia de que a cidade, antes marcada por violência, agora tem um espaço onde a cultura indígena pode ser celebrada livremente.
Além da presença indígena, o evento contou com o apoio de coletivos de direitos humanos, organizações ambientais, movimentos estudantis e grupos de juventude. Day Puri ressaltou que a união desses movimentos fortalece a luta indígena em Guarulhos, criando uma rede de apoio que vai além das fronteiras da cidade.
O povo Puri mantém encontros mensais que incluem conversas na língua originária, preparo de comidas típicas, danças e cantos. Essas atividades são essenciais para a preservação da cultura e para o fortalecimento da identidade coletiva.
Contexto nacional de violência contra indígenas e solidariedade em expansão
O ato de Guarulhos ocorreu em meio a uma série de denúncias de violência contra comunidades indígenas em várias regiões do Brasil. Na última semana, foram registrados tentativas de assassinato, atropelamentos e ameaças de envenenamento da água em Tacuru (MS).
Um dos casos mais chocantes foi o incêndio que destruiu a residência da rezadeira indígena Ñandesy Roberta, de 90 anos, na Aldeia Jaguapiré, em 29 de outubro. O incidente gerou comoção nacional e reforçou a urgência de proteção das comunidades vulneráveis.
- Tacuru (MS): tentativas de assassinato e atropelamentos.
- Aldeia Jaguapiré (MS): incêndio na casa da rezadeira Ñandesy Roberta.
- Naviraí, Nioaque, Coronel Sapucaia (MS) e Avaí (SP): relatos de ameaças e agressões.
No dia 31 de outubro, o governo federal anunciou a ampliação do efetivo da Força Nacional de Segurança Pública nas aldeias Guarani‑Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, como resposta às denúncias de violência. Essa medida reflete a gravidade da situação e a necessidade de ações concretas de proteção.
Em Guarulhos, estima‑se que vivam cerca de 1.650 indígenas, número que representa uma parcela significativa da população indígena nacional, que totaliza aproximadamente 1,7 milhão de pessoas. Essa presença reforça a importância de políticas públicas que garantam direitos territoriais, culturais e de segurança.
O evento também serviu como plataforma para divulgar o trabalho da Associação Tuatuna, que promove encontros culturais, rodas de conversa e outras atividades voltadas à valorização da cultura Puri. Os interessados podem acompanhar as ações pelo Instagram @associacaotuatuna ou pelo site tuatuna.com.br.
Ao final da manifestação, os participantes deixaram o local com a sensação de que a história está sendo reescrita, com o maracá como símbolo de resistência e a igreja como testemunha de um novo capítulo de respeito e reconhecimento dos povos originários.








