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Quadrilha internacional traficava ovos de aves brasileiras e arrecadou R$ 90 milhões, revela Polícia Federal

Em uma operação conjunta entre a Polícia Federal e autoridades europeias, foi desmantelada uma organização criminosa que movimentou cerca de R$ 90 milhões com o tráfico de ovos de aves nativas do Brasil. A ação ocorreu em março de 2024, envolvendo prisões no Rio de Janeiro, Curitiba, Zurique, Gran Canaria e Madrid. O caso expôs uma rede sofisticada que explorava espécies ameaçadas de extinção para lucro no mercado negro.

Operação policial e captura internacional

A investigação teve início quando a suíça Erika Zumofen‑Göllesz foi detida no Aeroporto do Galeão, ao tentar embarcar com 24 ovos de papagaio‑de‑cara‑roxa e papagaio‑charão escondidos em meias de seda. Ela já havia realizado 31 viagens entre a Suíça e o Brasil, sempre mantendo curtas estadias e rotas que passavam por Curitiba e Guarulhos.

Após a detenção, o celular de Erika foi apreendido e analisado pela PF, revelando contatos frequentes com Hans Zehnder, proprietário de dois viveiros de pássaros na Suíça, e com a família Schwarz, de Curitiba. As mensagens indicavam que os ovos eram retirados de ninhos em áreas de reserva, como Bocaiúva do Sul (PR), e enviados ao exterior para venda a preços que chegavam a R$ 6 mil por unidade.

Com base nas informações obtidas, a PF monitorou o embarque de Marco Schwarz rumo a Zurique. Dois agentes foram enviados à Europa e, com apoio das polícias suíça e espanhola, seguiram os passos de Marco e de Hans até a Ilha Gran Canaria, na Espanha.

Lá, os suspeitos foram presos em flagrante dentro de um quarto de hotel. A polícia apreendeu o equivalente a R$ 260 mil em euros e francos suíços, além de documentos que apontavam para uma rede de compradores em vários continentes. Ambos foram transferidos para Madri, onde aguardam o processo de extradição ao Brasil.

Rede de fornecimento no Brasil

Paralelamente às prisões no exterior, a Polícia Federal cumpriu mandados em Curitiba. Rita Lydia Schwarz e Cláudia Fabiana Schwarz, esposa e filha de Marco, foram detidas em sua residência, que também funcionava como loja de equipamentos de captura e manejo de animais.

Durante a operação, foram apreendidos 61 animais empalhados e 130 partes de espécies ameaçadas, como crânios e dentes de mico‑leão‑de‑cara‑dourada e primatas colombianos. Esses itens configuram crime ambiental segundo a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98).

A defesa de Cláudia Fabiana Schwarz informou que sua cliente está em liberdade provisória e ainda não teve acesso aos autos. Já Erika Zumofen‑Göllesz é considerada foragida, pois foi liberada após prestar depoimento e ainda não foi localizada.

Os investigadores também descobriram que a logística da quadrilha incluía o uso de malas, roupas e até mesmo sutiãs para esconder os ovos durante o transporte. A bióloga Fernanda Guida, do Zoológico de São Paulo, explicou que a incubação de ovos silvestres exige controle rigoroso de temperatura e umidade, o que faz com que muitos embriões morram antes de chegar ao destino.

Dos 24 ovos apreendidos com Erika no Galeão, apenas nove papagaios conseguiram nascer e foram encaminhados para reabilitação. Os demais foram descartados devido ao estado avançado de deterioração.

Impactos ambientais e casos semelhantes

O tráfico de ovos de aves nativas tem consequências graves para a conservação das espécies. Cada ninho removido diminui a taxa de sucesso reprodutivo, ameaçando ainda mais populações já vulneráveis. Além disso, o comércio ilegal alimenta um mercado clandestino que valoriza a exclusividade de animais exóticos.

Outros casos recentes reforçam a magnitude do problema. Em Foz do Iguaçu (PR), um casal de chineses foi preso ao transportar 34 ovos em incubadoras improvisadas dentro de uma sacola e costuras de uma jaqueta. Desses, 18 filhotes já nasceram e recebem cuidados de veterinários e zootecnistas.

  • 34 ovos confiscados em Foz do Iguaçu
  • 18 filhotes já nascidos e em reabilitação
  • Uso de incubadoras caseiras e roupas como esconderijo

No Aeroporto de Guarulhos (SP), a PF apreendeu 71 ovos destinados à China e ao Vietnã em apenas cinco dias. Todos os ovos foram encaminhados ao Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (CETRAS) para avaliação e possível devolução à natureza.

Esses episódios demonstram que a prática não se limita a uma única quadrilha, mas faz parte de um comércio global que envolve diversos países e rotas de transporte. A cooperação internacional entre agências de segurança e ambientais tem se mostrado essencial para desmantelar essas redes.

Especialistas alertam que, além da repressão, é fundamental investir em campanhas de conscientização e em programas de monitoramento de áreas de conservação. A proteção de habitats naturais e o apoio a projetos de reprodução em cativeiro controlado podem reduzir a demanda por ovos ilegais.

Em síntese, a operação revelou a complexidade e o alcance de um crime ambiental que movimentou cifras milionárias e colocou em risco a sobrevivência de espécies emblemáticas do Brasil. A continuidade das investigações e a cooperação entre países são passos decisivos para coibir práticas que ameaçam a biodiversidade nacional.

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