O Ministério Público Federal (MPF) iniciou, nesta semana, um inquérito na Bahia para apurar o suposto desvio de telas que retratam instrumentos de suplício e crucificação de Jesus Cristo, pertencentes ao acervo da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, localizada no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador.
Contexto histórico e artístico da Igreja da Ordem Terceira
Erguida entre os séculos XVII e XVIII, a igreja destaca-se por sua fachada em pedra arenito lavada, adornada com altos-relevos que remetem ao barroco espanhol, único exemplo desse estilo no território nacional.
O projeto arquitetônico foi assinado por Gabriel Ribeiro, considerado um dos pioneiros do barroco no Brasil, cujas linhas combinam imponência estrutural e delicadeza ornamental.
No interior, o teto apresenta pinturas de Franco Velasco, artista italiano que trabalhou no Brasil durante o período colonial, trazendo influências europeias ao cenário local.
Além das obras de arte pictóricas, o conjunto abriga o único conjunto de azulejaria portuguesa que retrata a cidade de Lisboa antes do devastador terremoto de 1755, um registro raro e de valor incalculável para historiadores.
- Fachada em pedra arenito lavada com altos-relevos barrocos.
- Pinturas no teto assinadas por Franco Velasco.
- Azulejaria portuguesa que representa Lisboa pré-1755.
- Altar neoclássico do século XIX, obra de José de Cerqueira Torres.
Esses elementos conferem à igreja um status de Patrimônio Histórico reconhecido pelo Iphan, que a classificou como uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.
Reformas e transformações ao longo dos séculos
No século XIX, o interior da igreja passou por uma profunda reforma que substituiu a decoração original barroca por altares neoclássicos, assinados pelo mestre artesão José de Cerqueira Torres.
Essa intervenção refletiu as mudanças estéticas da época, mas também preservou a estrutura arquitetônica original, permitindo que visitantes apreciem a coexistência de dois estilos artísticos distintos.
Hoje, o conjunto arquitetônico e artístico forma parte integrante do Centro Histórico de Salvador, reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
Além de seu valor estético, a igreja desempenha um papel ativo na vida religiosa e cultural da comunidade local, sediando missas, eventos culturais e visitas guiadas que atraem turistas nacionais e estrangeiros.
Investigações do MPF e possíveis implicações
A procuradora da República Vanessa Cristina Gomes, responsável pela abertura do inquérito, ressaltou a necessidade de novas diligências para aprofundar e concluir as investigações sobre o desaparecimento das telas.
Segundo a equipe do MPF, as telas em questão são peças únicas que documentam, de forma visual, os instrumentos de tortura associados à crucificação, sendo parte integrante do acervo histórico da igreja.
O suposto desvio levanta preocupações sobre a segurança dos bens culturais, sobretudo em ambientes que dependem de recursos limitados para conservação e monitoramento.
Especialistas em patrimônio alertam que a perda ou roubo de artefatos desse tipo pode comprometer pesquisas acadêmicas, exposições educativas e a própria identidade cultural da comunidade salvadorenha.
O MPF pretende, ainda, avaliar a responsabilidade de eventuais gestores, funcionários ou terceiros que possam ter facilitado o desaparecimento das telas, bem como identificar possíveis redes de tráfico de artefatos religiosos.
Caso sejam confirmadas irregularidades, as sanções previstas incluem a restituição dos bens ao acervo original, multas pecuniárias e, em casos mais graves, processos criminais por furto qualificado e dano ao patrimônio cultural.
Enquanto as investigações avançam, a comunidade local tem se mobilizado para reforçar a vigilância e promover campanhas de conscientização sobre a importância da preservação dos bens históricos.
Organizações não governamentais e universidades da região também têm oferecido apoio técnico, realizando inventários detalhados e propondo medidas de segurança mais robustas, como sistemas de monitoramento eletrônico e treinamento de pessoal.
O caso evidencia a necessidade de políticas públicas mais efetivas na proteção do patrimônio cultural, especialmente em cidades com grande concentração de monumentos históricos, como Salvador.
Em resumo, a abertura do inquérito pelo MPF não apenas busca esclarecer o destino das telas desaparecidas, mas também reforçar o compromisso institucional com a preservação do legado histórico que a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco representa para o Brasil e para o mundo.








