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Cidade de Témiscaming luta para salvar fábrica de papel diante das tarifas de Trump

A fábrica de papel de Témiscaming, no Quebec, ficou parada em outubro de 2023 após a imposição de novas tarifas comerciais pelos Estados Unidos. O fechamento ameaça o principal empregador da cidade, que depende da produção de celulose há mais de um século. Moradores, sindicatos e autoridades locais buscam alternativas para evitar que a comunidade se transforme em um vilarejo abandonado.

Impacto imediato na população

Com cerca de 360 trabalhadores, a unidade industrial representava quase 30% dos empregos formais de Témiscaming. Desde a paralisação, a maioria dos funcionários recebe apenas um auxílio parcial do programa de alívio tarifário do governo canadense. Para famílias como a de Nadine Suley, a perda de renda significa não só a falta de sustento, mas também o risco de perder um modo de vida que se perpetua há gerações.

“Se a fábrica fechar, a cidade vai virar uma cidade fantasma”, alerta Ronnie Raymond, descendente de trabalhadores da planta. Ele descreve um cenário em que até os serviços essenciais – supermercados, clínicas e escolas – poderiam ser reduzidos ou encerrados por falta de demanda.

Os efeitos colaterais já são visíveis no mercado imobiliário. Imóveis que antes eram valorizados pela proximidade com o emprego industrial viraram alvos de anúncios “Vende-se”. A queda abrupta nos preços das casas ameaça a estabilidade financeira de proprietários que ainda não encontraram alternativa de renda.

Contexto das tarifas e da economia canadense

Desde a eleição de Donald Trump, os Estados Unidos aumentaram tarifas sobre produtos canadenses, incluindo madeira, celulose e papel, que podem chegar a 50% em alguns casos. Embora a taxa de desemprego nacional tenha se mantido em torno de 6,5%, setores específicos sentem o impacto de forma aguda. A indústria florestal de Quebec, responsável por grande parte das exportações de papel, está entre as mais vulneráveis.

Uma análise setorial mostra que, além da fábrica de Témiscaming, outras empresas de serraria e transporte rodoviário já anunciaram demissões. Um empreiteiro local relatou a demissão de 13 funcionários, refletindo uma cadeia de perdas que pode se estender por toda a região.

O governo federal, liderado pelo primeiro‑ministro Mark Carney, tem defendido políticas de “comprar produtos locais” e proteger empregos canadenses, mas ainda não apresentou um plano de alívio tarifário específico para o setor de papel e celulose.

Mobilização da comunidade e possíveis caminhos

Historicamente, a cidade já enfrentou crises semelhantes. Em 1973, trabalhadores e gestores compraram a fábrica quando o proprietário americano ameaçou o fechamento, transformando‑a na Tembec, empresa de capital quebequense com presença internacional. Inspirados por esse precedente, os moradores de Témiscaming estão organizando uma coalizão para tentar recomprar a planta da atual proprietária, a empresa americana RY-M.

Para viabilizar a compra, eles exigem apoio financeiro e regulatório do governo provincial e federal. Entre as demandas estão:

  • Isenção ou redução das tarifas americanas sobre papel e celulose;
  • Linhas de crédito de baixo custo para a aquisição da fábrica;
  • Incentivos fiscais para investidores que mantiverem a produção local;
  • Programas de capacitação para trabalhadores que precisem se recolocar.

A RY-M, que adquiriu a planta em 2017, ainda não se pronunciou sobre a possibilidade de venda. Em comunicado enviado à BBC, a empresa afirmou que não comentaria negociações futuras.

Enquanto isso, a comunidade busca alternativas de curto prazo. Alguns residentes têm intensificado a caça de alces para garantir alimento, enquanto outros organizam feiras de produtos artesanais para gerar renda extra. A solidariedade local tem sido um ponto de apoio emocional, mas não substitui a necessidade de uma solução estrutural.

Especialistas apontam que, sem intervenção governamental, o risco de um efeito dominó é alto. A perda da fábrica pode desencadear um êxodo de famílias, redução da arrecadação municipal e fechamento de escolas, criando um ciclo de declínio difícil de reverter.

O futuro de Témiscaming ainda depende de negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos, bem como da capacidade dos líderes locais de mobilizar recursos e apoio popular. A história mostra que a comunidade tem força para se reinventar, mas o tempo está se esgotando.

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