Na tarde de domingo, 30 de outubro de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) enfrentou um momento crítico ao ter que ampliar o horário de votação por decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF). O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, precisou agir rapidamente para garantir a transparência da apuração e evitar que surgissem teorias da conspiração que pudessem abalar a legitimidade do resultado.
O impasse gerado pela extensão do horário de votação
Quando Zanin assinou a medida que acrescentou duas horas ao expediente das urnas, seis dos sete ministros do TSE manifestaram forte descontentamento. Apenas a ex‑auxiliar de Flávio Dino, Estela Aranha, apoiou a decisão. O clima de quase revolta foi alimentado por dúvidas sobre a viabilidade técnica de manter as urnas abertas por mais tempo, já que grande parte dos equipamentos já havia sido lacrada logo após as 17h.
Nunes Marques, ciente da pressão dos candidatos e das coligações, recebeu um telefonema de Zanin pouco antes da mudança. O ministro explicou que a ordem seria válida apenas para as seções que ainda estivessem em funcionamento, evitando, assim, um prolongamento indefinido da votação.
Mesmo assim, a situação trouxe um dilema: como garantir que a contagem dos votos fosse feita de forma transparente, sem dar margem a interpretações equivocadas?
Medidas adotadas para preservar a credibilidade da apuração
Para impedir que a divulgação dos resultados fosse usada como combustível para narrativas conspiratórias, Nunes Marques definiu um plano de comunicação gradual. A partir das 19h, horário oficial de encerramento da votação, os votos já contabilizados foram publicados de forma escalonada, permitindo que a sociedade acompanhasse o desenrolar da apuração em tempo real.
Além da divulgação pausada, o presidente do TSE adotou outras ações estratégicas, listadas a seguir:
- Solicitação de esclarecimentos às prefeituras e aos Tribunais Regionais Eleitorais sobre eventuais atrasos na entrega dos boletins de urna.
- Bloqueio da divulgação de números parciais que pudessem sugerir vantagem indevida a qualquer candidato antes da conclusão da totalização.
- Monitoramento contínuo dos sistemas de transmissão dos resultados, garantindo que não houvesse falhas técnicas que pudessem ser interpretadas como manipulação.
- Comunicação direta com a imprensa, fornecendo boletins oficiais a cada etapa da contagem.
Essas providências foram essenciais para manter a confiança dos eleitores, especialmente em um cenário polarizado onde discursos de desconfiança já eram frequentes.
O desenrolar da contagem e a vitória de Lula
Com a estratégia de divulgação paulatina, os números começaram a aparecer aos poucos. Às 19h46, Flávio Bolsonaro ultrapassou temporariamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, gerando um breve alvoroço nas redes sociais. No entanto, às 20h25, Lula retomou a dianteira e, a partir de então, consolidou sua vantagem.
Quando o sistema do TSE registrou que Lula havia atingido o percentual matemático que garantia a vitória – 51,79% dos votos válidos, totalizando 64.256.232 votos – a apuração foi concluída. Nunes Marques, então, fez um telefonema de três minutos ao presidente eleito, parabenizando‑o e desejando sucesso no próximo mandato.
O resultado final reforçou a importância da condução cuidadosa da contagem. Ao evitar a divulgação abrupta de percentuais intermediários, o TSE diminuiu significativamente o risco de surgimento de narrativas conspiratórias que poderiam questionar a legitimidade do processo eleitoral.
Em retrospectiva, especialistas em comunicação política destacam que a combinação de transparência controlada, comunicação constante com a imprensa e uso estratégico de tecnologia foi decisiva para preservar a credibilidade das eleições.








