O advogado Willer Tomaz, alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal por suspeita de lavagem de dinheiro, possui ao menos cinco imóveis adicionais nas ilhas de Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro. As aquisições ocorreram entre 2021 e 2022, período em que o senador Flávio Bolsonaro apresentou projetos que facilitam a exploração econômica da região.
Aquisição das propriedades
Entre 2021 e 2022, Tomaz comprou quatro casas e adquiriu participação em uma quinta, localizada em diferentes ilhas da região. Uma das propriedades, a Ilha do Jorge, está registrada em nome da empresa Real Estate Duo 4, vinculada ao grupo Prime You.
Os registros da Secretaria de Patrimônio da União (SPU) mostram que as compras foram feitas por empresas controladas por Tomaz, sem a divulgação de fontes de financiamento. As transações ocorreram logo após a apresentação de um projeto de lei que permitiria a municipalização de unidades de conservação federais e estaduais.
Além das casas, Tomaz possui cotas de uma sexta propriedade na Ilha do Jorge, cujo titular formal é a Prime You, companhia que administra bens de luxo compartilhados entre milionários. A Prime You teve, entre 2021 e 2025, como sócio o banqueiro Daniel Vorcaro, que também utilizava outra casa na mesma ilha.
- Ilha Comprida – casa comprada em 2021
- Ilha do Jorge – participação de 25% adquirida em 2022
- Ilha de Itanhangá – imóvel adquirido em 2022
- Ilha de São Sebastião – compra registrada em 2022
- Ilha de Arraial – aquisição concluída em 2022
Conexões políticas e projetos legislativos
Durante o mesmo período de compra, o senador Flávio Bolsonaro, irmão do ex‑presidente Jair Bolsonaro, apresentou ao Senado duas propostas que podem impactar diretamente o valor das propriedades de Tomaz. O primeiro projeto visa flexibilizar regras de exploração econômica em Angra, permitindo a municipalização de áreas de conservação.
O segundo projeto, conhecido como PEC das Praias, propõe a privatização das ilhas marítimas brasileiras, atualmente bens da União. Caso aprovado, a lei abriria caminho para a regularização de ocupações privadas como as de Tomaz.
Ambos os projetos ainda tramitam no Congresso, e a relação entre Tomaz e Flávio Bolsonaro tem sido objeto de questionamentos por jornalistas. Até o momento, Tomaz não respondeu a perguntas sobre possíveis benefícios comerciais decorrentes das propostas.
Conflitos e denúncias envolvendo celebridades
A disputa por uma das casas de Angra ganhou destaque nacional quando o atacante Richarlison, que jogou pelo Tottenham e pela Seleção Brasileira, acusou Flávio Bolsonaro de interferir na negociação. Em vídeo publicado em 21 de outubro, o jogador afirmou que investiu R$ 10 milhões na casa da Ilha Comprida a partir de 2020.
Richarlison alegou que Flávio Bolsonaro visitou a ilha, demonstrou interesse na propriedade e tentou obter direitos sobre ela, contando com a amizade de Tomaz para pressionar a venda. O atleta, sócio da empresa Sport 70, solicitou à SPU a regularização do imóvel em setembro de 2021, mas o processo não avançou.
Do lado de Tomaz, a regularização foi iniciada em maio de 2022 por meio da empresa M Locadora de Veículos, que também solicitou a intervenção da SPU. Até agora, nenhum dos processos resultou em decisão final.
Além da disputa com Richarlison, Tomaz mudou‑se para os Estados Unidos em agosto de 2023, após ser alvo de uma operação da Polícia Federal que investigava supostos esquemas de lavagem de dinheiro. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro fugiu para a Flórida dois dias após a derrota no segundo turno da eleição presidencial de 2022.
Os documentos de cartório e os sistemas da SPU confirmam a existência das seis propriedades vinculadas a Tomaz, mas não esclarecem se há algum acordo formal entre ele e o senador. A reportagem tentou contato com Flávio Bolsonaro, mas não obteve resposta.
Especialistas em direito ambiental apontam que a Constituição Federal classifica as ilhas como bens da União, podendo ser ocupadas mediante aforamento ou ocupação registrada. No entanto, a SPU tem autoridade para rever e até revogar tais ocupações caso sejam consideradas irregulares.
O caso ilustra como interesses privados, projetos legislativos e celebridades podem convergir em disputas de alto valor na Costa Verde, região que o ex‑presidente Jair Bolsonaro já descreveu como “uma nova Cancún” em 2019.
Enquanto o debate sobre a privatização das ilhas avança no Senado, investidores como Tomaz continuam a ampliar seu portfólio de propriedades de luxo, levantando dúvidas sobre a transparência das transações e o cumprimento das normas ambientais.
Observadores políticos alertam que a aprovação da PEC das Praias poderia criar precedentes para a venda de outros bens públicos, potencialmente beneficiando grupos ligados a parlamentares. A situação de Tomaz pode servir de exemplo para futuros casos semelhantes.
Em síntese, a combinação de aquisições imobiliárias, projetos de lei controversos e disputas públicas coloca em foco a necessidade de maior fiscalização das ocupações de ilhas e da origem dos recursos utilizados nas transações.








