Em 2024, pesquisadores da Embrapa identificaram um exemplar impressionante de café liberica na região de Irituia, no interior do Pará, revelando um espécime que chega a 11 metros de altura e 60 centímetros de diâmetro no tronco. A descoberta, feita no quintal da família do agricultor Agílio Cordeiro Vieira, destaca a presença de uma espécie que representa apenas 0,01% da produção mundial de café.
Características botânicas e produtivas
A Coffea liberica, popularmente chamada de “café beirão” pelos moradores locais, diferencia-se das variedades mais cultivadas como arábica e robusta por seus frutos maiores e casca mais espessa. As árvores prosperam sob a sombra de espécies nativas da floresta amazônica, aproveitando solos frescos e ricos em matéria orgânica que favorecem seu desenvolvimento.
Ao contrário das plantações de arábica, que exigem altitudes específicas, e das de robusta, que toleram sol pleno, o liberica se adapta a ambientes mais úmidos e sombreados. Essa adaptação confere à planta uma resistência natural a certas pragas e doenças, reduzindo a necessidade de defensivos agrícolas.
Do ponto de vista químico, o teor de cafeína do liberica situa-se entre o arábica (menor) e o robusta (maior), proporcionando uma experiência sensorial única. Baristas que testaram o grão relataram notas frutadas marcantes e um toque herbal que remete ao chá‑verde, ampliando o leque de perfis de sabor disponíveis ao consumidor gourmet.
Desafios e oportunidades para o cultivo
Apesar do entusiasmo dos produtores locais, o caminho para a comercialização em larga escala ainda encontra obstáculos técnicos. Entre as principais barreiras estão:
- Falta de protocolos de manejo específicos para a espécie;
- Dificuldade de obtenção de mudas certificadas;
- Necessidade de adaptação de equipamentos de colheita e beneficiamento;
- Escassez de informações sobre a resposta da planta a diferentes regimes de fertilização.
Até o momento, apenas sete exemplares foram mapeados no Pará, todos isolados em quintais produtivos. Essa dispersão dificulta a criação de um banco genético robusto, essencial para programas de melhoramento.
A hipótese mais aceita para a presença do liberica na Amazônia remonta à expedição militar de Francisco Palheta, quase 300 anos atrás, quando mudas teriam sido introduzidas como parte de um experimento agrícola colonial.
Em termos de produção, países como Indonésia, Filipinas, Malásia, Libéria e Costa do Marfim já cultivam o liberica em escala limitada, mas o Brasil ainda não desenvolveu um sistema comercial para a espécie.
Perspectivas de mercado e pesquisas futuras
A primeira fase do estudo recebeu cerca de R$ 115 mil da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), permitindo a coleta, prensagem, secagem, congelamento e digitalização das amostras que agora integram o herbário da Embrapa, com mais de 206 mil espécimes catalogados.
Os próximos passos incluem a avaliação do potencial de exportação e a análise de viabilidade econômica para pequenos agricultores da região. Caso os resultados sejam positivos, espera‑se que novos recursos sejam liberados para acelerar a segunda fase da pesquisa.
O mercado de cafés especiais tem buscado constantemente novas origens e sabores diferenciados. O perfil sensorial do liberica, com sua combinação de notas frutadas e herbais, pode atender a nichos premium que valorizam a exclusividade e a história por trás da bebida.
Além do aspecto comercial, o cultivo do liberica pode contribuir para a conservação da biodiversidade amazônica, ao incentivar sistemas agroflorestais que mantêm a cobertura arbórea e promovem a saúde do solo.
Para os consumidores, a descoberta abre a possibilidade de experimentar um café raro, cuja história está ligada a episódios históricos da colonização e à riqueza natural da floresta. A expectativa é que, nos próximos anos, cafés de libérica com certificação de origem amazônica cheguem às prateleiras de cafeterias especializadas ao redor do mundo.
Enquanto isso, pesquisadores continuam monitorando as árvores existentes, coletando dados de crescimento, produtividade e resistência a fatores climáticos. Essa base de conhecimento será fundamental para desenvolver variedades adaptadas às condições locais e para criar protocolos de manejo que garantam a sustentabilidade econômica e ambiental do cultivo.








