O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, está no centro de uma tempestade política ao ter que conduzir investigações que envolvem membros da própria Corte, em meio a tensões institucionais e desconfiança da sociedade. O debate ocorreu na última edição do programa VEJA em Foco, exibido em 31 de outubro de 2026, e contou com a participação do cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A situação, segundo o especialista, representa “uma baita encrenca” para o líder do STF, que precisa equilibrar a independência judicial com a pressão política.
Desafios operacionais e a necessidade de autoinvestigação
Fachin assumiu recentemente a responsabilidade de devolver ao ministro André Mendonça a relatoria das investigações sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Ao mesmo tempo, manteve sob sua alçada, por 90 dias, o caso do Banco Master, que também envolve suspeitas de irregularidades financeiras. Essa dupla de decisões evidencia a complexidade de gerir processos que podem impactar diretamente a credibilidade da mais alta corte do país.
Para Prando, o maior obstáculo não está apenas na distribuição dos processos, mas na necessidade de demonstrar que o STF pode investigar seus próprios membros sem interferência externa. Ele ressalta que a confiança da população no Judiciário está em baixa, e que qualquer percepção de parcialidade pode aprofundar a crise institucional.
O cientista político destaca ainda que a autoinvestigação deve ser conduzida de forma transparente, com protocolos claros e comunicação eficaz para o público. Segundo ele, “nem o presidente, nem o vice‑presidente, nem eu, nem vocês e nem os ministros do Supremo Tribunal estão acima da lei”.
- Reforçar a independência judicial;
- Garantir processos investigativos imparciais;
- Comunicar resultados de forma clara à sociedade;
- Preservar a separação dos Poderes.
Crise de confiança institucional e o papel do STF na política
Prando argumenta que a crise de confiança vai além das investigações em curso. Ele aponta que decisões recentes dos ministros foram percebidas como alinhadas a disputas políticas, o que alimenta a suspeita de que o Judiciário está sendo usado como ferramenta de poder.
O professor enfatiza que o STF deve concentrar seus esforços em atribuições constitucionais, deixando a condução da política para o Executivo e o Legislativo. “Eu gostaria muito que o Supremo atuasse como Supremo e deixasse a política para os outros dois poderes”, declarou Prando durante a entrevista.
Essa postura, segundo o especialista, é essencial para restaurar a credibilidade da Corte. Ele alerta que, se os ministros continuarem a ser vistos como atores políticos, a legitimidade do Judiciário pode ser irrevogavelmente abalada.
Impacto das eleições presidenciais na dinâmica do STF
A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022 trouxe, segundo Prando, um alívio político para o ministro Alexandre de Moraes. O especialista afirma que, caso Flávio Bolsonaro tivesse sido eleito, a situação de Moraes poderia ter se tornado ainda mais delicada, especialmente diante de um Senado com forte presença do PL.
Prando ressalta que a estabilidade política proporcionada pela vitória de Lula permitiu que o STF recupere parte de sua margem de manobra institucional. No entanto, ele adverte que a dependência do tribunal em relação aos resultados eleitorais não pode se tornar um padrão.
Para o cientista político, a independência do Judiciário deve ser preservada independentemente de quem ocupe a Casa Branca. “Só que o ministro não é político, não deveria exercer funções políticas”, afirmou, defendendo uma separação mais clara entre a atuação judicial e as disputas partidárias.
Perspectivas futuras e recomendações para o presidente Fachin
Ao encerrar a entrevista, Prando ofereceu uma lista de recomendações práticas para que Fachin possa enfrentar a crise com mais eficácia. Ele sugere a criação de um comitê interno de ética, a publicação regular de relatórios de progresso das investigações e a abertura de canais de comunicação direta com a sociedade civil.
- Estabelecer um comitê de ética independente dentro do STF;
- Divulgar relatórios trimestrais sobre as investigações em curso;
- Promover audiências públicas para esclarecer dúvidas da população;
- Fortalecer a formação continuada dos magistrados em temas de compliance e transparência.
Seguindo essas diretrizes, Fachin teria mais condições de transformar a “baita encrenca” em uma oportunidade de renovação institucional. O especialista conclui que a restauração da confiança depende, sobretudo, da capacidade dos ministros de respeitar os limites de suas funções e garantir que nenhum deles esteja acima da lei.








