Um relatório divulgado pelo Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade revelou que empresas e pessoas ligadas ao pastor Márcio Poncio acumularam quase R$ 3 bilhões em dívidas com a União, conforme dados do segundo trimestre de 2025. A pesquisa, realizada em diversas cidades brasileiras, aponta um cenário de endividamento massivo que agora está sob intenso escrutínio da Polícia Federal.
O levantamento de dívidas e suas nuances
O documento do FNCP indica que o valor bruto das obrigações chega a R$ 2.929.182.175,11, incluindo tributos federais, multas e juros. Contudo, o relatório alerta que nem todos os números podem ser somados diretamente, pois há responsabilidade solidária entre empresas e indivíduos.
Ao eliminar duplicidades, o cálculo ajustado ainda supera os R$ 2,9 bilhões, evidenciando a magnitude do débito. Esse montante representa mais de 30% da arrecadação anual de alguns estados, o que coloca a família Poncio entre os maiores devedores do país.
Os débitos são compostos por diferentes tipos de cobrança: tributos federais atrasados, multas administrativas por infrações diversas e juros moratórios que incidem sobre o valor principal. Cada categoria tem sua própria regra de cálculo, o que complica ainda mais a regularização.
Patrimônio e ativos identificados
A pesquisa também mapeou bens e empresas associados ao núcleo familiar. Foram analisados 292 documentos vinculados a 84 pessoas físicas e jurídicas nos registros de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Aparecida de Goiânia.
O levantamento aponta R$ 49,3 milhões em imóveis, dos quais 13 já possuem restrições judiciais, como indisponibilidade ou arrolamento, devido a dívidas tributárias.
- Casa em Mangaratiba – compra de R$ 9 milhões em 2022.
- Apartamento na Avenida Lúcio Costa, Rio – aquisição por R$ 22 milhões em 2023.
- Sala comercial na Avenida das Américas – adquirida por Sarah Poncio por R$ 723,8 mil em 2025.
- Outros 14 imóveis avaliados em R$ 44,2 milhões, comprados entre 2018 e 2023.
Além dos imóveis, o relatório menciona a existência de aeronaves, veículos de luxo e empresas de fachada que operam em nome de parentes, colaboradores e terceiros. Esses ativos são apontados como parte de uma suposta estratégia de ocultação patrimonial.
Os registros indicam que, entre 2018 e 2023, as empresas ligadas ao grupo compraram 16 propriedades, totalizando R$ 44,2 milhões em investimentos imobiliários. Esse volume de aquisição sugere um fluxo de caixa significativo, ainda que não esclareça a origem dos recursos.
Operação da Polícia Federal e consequências jurídicas
Na última semana, a Polícia Federal avançou na 9ª fase da Operação Unha e Carne, que tem como foco suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. A operação, deflagrada em 29 de outubro, resultou em quatro mandados de busca e apreensão na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Segundo a PF, a investigação revelou uma estrutura patrimonial complexa, composta por imóveis de alto padrão, aeronaves, carros de luxo e empresas controladas por familiares e associados. O pastor Márcio Poncio, que está em prisão domiciliar após ser detido na quinta fase da operação, foi citado em documentos que ligam seus negócios ao mercado ilegal de cigarros e ao círculo do bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho.
A PF afirma que a rede de empresas pode estar sendo usada para movimentar recursos ilícitos, dificultando o rastreamento das origens do dinheiro. As autoridades ainda não divulgaram se há indícios de crimes financeiros específicos, mas a associação com o tráfico de cigarros e jogos de azar aumenta a gravidade das investigações.
Além das buscas, a Polícia Federal está analisando documentos fiscais, contratos de compra e venda e registros de transferência de bens. O objetivo é comprovar se há tentativa de desviar recursos da dívida tributária ou se os ativos foram adquiridos com dinheiro proveniente de atividades ilícitas.
O pastor, que lidera um grande conglomerado de empreendimentos religiosos, tem sido alvo de críticas públicas devido ao contraste entre seu discurso de prosperidade e a realidade de dívidas bilionárias. Comentários nas redes sociais apontam para um possível descompasso entre a imagem pública e a situação financeira real.
Especialistas em direito tributário destacam que a responsabilidade solidária pode levar a processos judiciais contra todos os membros do grupo, inclusive aqueles que não têm participação direta nas decisões empresariais. Isso significa que a dívida pode ser cobrada de forma conjunta, ampliando o risco de bloqueio de bens.
Para a família Poncio, a estratégia de defesa inclui alegar que parte das dívidas decorre de multas administrativas que já foram contestadas nos tribunais. Contudo, os advogados ainda não apresentaram documentos que comprovem a regularização dos valores.
O cenário atual deixa em aberto a possibilidade de novas fases da operação, que podem incluir a apreensão de mais bens e a prisão preventiva de outros envolvidos. A expectativa é que a PF continue a aprofundar a investigação nos próximos meses.
Enquanto isso, o FNCP reforça a importância de combater a pirataria e a ilegalidade, alertando que casos como o da família Poncio demonstram como a sonegação fiscal pode estar ligada a atividades criminosas mais amplas.
O caso também reacende o debate sobre a transparência nas finanças de organizações religiosas no Brasil, que muitas vezes operam com pouca fiscalização. Legisladores têm proposto projetos de lei para aumentar a exigência de prestação de contas e impedir a utilização de recursos de doações para fins ilícitos.
Em síntese, a combinação de um débito quase bilionário, um patrimônio diversificado e uma operação policial em curso cria um panorama complexo que ainda está em desenvolvimento. A sociedade acompanha atentamente, aguardando respostas sobre a origem dos recursos e as possíveis sanções que podem ser impostas.








