O filme “100 dias” chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta‑feira (29) e traz a recriação da travessia histórica de Amyr Klink pelo Atlântico Sul. A obra encerrou a Première Brasil do Festival do Rio e tem como foco a jornada solitária do navegante em um barco a remo.
A produção e o elenco
A adaptação do livro “Cem Dias Entre Céu e Mar”, escrito pelo próprio Amyr, conta com uma produção que demonstra cuidado com a ambientação da década de 1980. O cenário de Lüderitz, na Namíbia, até a costa de Camaçari, na Bahia, foi reconstruído com atenção aos detalhes de portos, equipamentos de navegação e vestuário da época.
O elenco reúne nomes de destaque. Filipe Bragança encarna o protagonista, trazendo intensidade ao retratar a solidão e a determinação de Klink. Philippine Leroy‑Beaulieu interpreta a mãe, Asa, e João Vitor Silva faz o papel do irmão, Tymur, oferecendo apoio emocional ao navegante.
Além desses, Felipe Camargo aparece como o pai, Jamil Klink, proporcionando momentos de tensão familiar que ajudam a construir a camada psicológica do personagem.
Os pontos positivos da produção podem ser resumidos em:
- Direção de arte consistente, que reproduz o clima marítimo.
- Trilha sonora que acompanha as variações de humor.
- Fotografia que destaca a imensidão do oceano.
Entretanto, apesar desses acertos, a sensação geral é de que algo ainda falta para que o filme entregue uma experiência completa.
Direção, estética e ritmo
O diretor Carlos Saldanha, conhecido por animações como “A Era do Gelo” e “Rio”, assume seu primeiro longa‑live‑action com a missão de transmitir o claustrofóbico isolamento que Amyr viveu. Em cenas dentro da pequena embarcação, a câmera se aproxima ao ponto de quase tocar o remo, reforçando a pressão física e mental.
Alguns momentos são visualmente poéticos, como o encontro com golfinhos que nadam ao lado do barco ou a sequência em que o protagonista contempla as estrelas após um dia exaustivo de remadas. Essas imagens são acompanhadas por cortes precisos que mantêm o espectador atento ao ritmo da narrativa.
No entanto, a direção não consegue sustentar um pulso emocional constante. Muitas vezes, os eventos são apresentados de forma factual, sem a carga dramática necessária para envolver o público. Essa falta de intensidade se torna mais evidente na metade do filme, onde o ritmo desacelera antes de retomar um leve impulso nas cenas finais.
O roteiro, escrito por Elena Soarez e Thais Tavares, alterna entre momentos de estratégia de sobrevivência – como a construção de um sistema de coleta de água – e conflitos familiares previsíveis. As cenas que exploram a relação com o pai, embora relevantes, seguem um caminho narrativo já visto em outras obras de superação.
Em termos de estrutura, o filme poderia ter se beneficiado de:
- Maior aprofundamento nos dilemas internos de Amyr.
- Uso mais frequente de flashbacks que revelassem motivações pessoais.
- Construção de antagonismo, ainda que simbólico, para gerar tensão.
Ao não explorar plenamente esses recursos, a obra perde oportunidades de criar um vínculo emocional mais forte com o espectador.
Aspectos técnicos e críticas
Do ponto de vista técnico, a produção apresenta contrastes marcantes. As cenas ao ar livre, filmadas em locais costeiros reais, exibem uma qualidade de imagem nítida e cores que realçam a vastidão do oceano. Por outro lado, alguns efeitos visuais revelam limitações de orçamento.
Em sequências específicas, como a luta contra um tubarão, a computação gráfica parece artificial, gerando uma sensação de que o animal está “programado” ao invés de ser uma ameaça real. Essa discrepância quebra a imersão e diminui a tensão esperada.
Além disso, há momentos em que o barco e o protagonista são claramente inseridos em um estúdio, o que pode distrair o público atento aos detalhes. Apesar disso, a maioria das cenas de remo e das interações com a natureza conseguem manter um grau de verossimilhança.
O elenco, no entanto, compensa parte das falhas técnicas. Filipe Bragança entrega uma performance sólida, equilibrando a vulnerabilidade do personagem com a coragem necessária para enfrentar 100 dias de isolamento.
Em resumo, o filme oferece uma base robusta – com produção, elenco e direção competentes – mas carece de um elemento essencial: a capacidade de emocionar de forma profunda. Para quem busca uma narrativa de aventura histórica, a obra pode ser informativa, mas para quem espera ser levado ao coração da experiência de Amyr Klink, o resultado pode ser decepcionante.








