Um casal de detentos, Hytalo Santos e seu companheiro Israel Vicente, está desenvolvendo um projeto voltado à comunidade LGBTQIA+ dentro da Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega, localizada em João Pessoa (PB). O programa, iniciado em 2025, tem como objetivo promover a expressão poética de pessoas trans e travestis privadas de liberdade. A iniciativa surge enquanto ambos cumprem pena por crimes relacionados à produção de conteúdo pornográfico com menores.
Contexto da prisão e da condenação
Hytalo Santos e Israel Vicente foram condenados em fevereiro de 2025 após investigação que apontou a produção e divulgação de material pornográfico envolvendo adolescentes na internet. Desde agosto do mesmo ano, os dois permanecem encarcerados na unidade prisional de João Pessoa.
A divulgação do caso ganhou grande repercussão quando o canal Felca publicou um vídeo expondo os envolvidos, ampliando o debate sobre a responsabilidade penal e a reintegração social de indivíduos condenados por crimes sexuais.
Origem e estrutura do projeto cultural
O projeto, intitulado “Vivências poéticas: direito à cultura e cidadania para pessoas trans e travestis em privação de liberdade”, foi concebido em parceria entre a administração penitenciária e o curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A proposta visa oferecer aos internos um espaço de criação literária que reflita suas experiências de gênero e sexualidade.
As oficinas são coordenadas por professores e estudantes de Direito, que atuam como mentores, orientando a escrita e a reflexão crítica dos participantes. O conteúdo produzido, sobretudo poemas, busca dar voz a narrativas muitas vezes silenciadas dentro do sistema prisional.
- Objetivo principal: promover a cidadania cultural.
- Participantes: internos trans, travestis e aliados.
- Metodologia: oficinas semanais de escrita criativa.
- Resultados: produção de dezenas de poemas e reflexões.
O papel de Hytalo e Israel no desenvolvimento das vivências poéticas
Dentro das sessões de escrita, Hytalo tem se destacado como facilitador informal, ajudando outros detentos a organizar suas ideias e transformar sentimentos em versos. Israel, por sua vez, colabora na revisão dos textos, garantindo coerência e profundidade nas narrativas.
Nas imagens divulgadas, o casal aparece ao lado de outros internos, segurando cadernos que contêm os poemas finalizados. Embora o conteúdo dos textos não seja exibido, a postura dos participantes demonstra orgulho e pertencimento ao movimento.
Os poemas abordam temas como identidade de gênero, superação de estigmas, esperança de liberdade e o cotidiano dentro da prisão. Essa produção literária tem sido considerada uma forma de resistência simbólica contra a invisibilidade que afeta a população LGBTQIA+ encarcerada.
Impactos e reações externas
A iniciativa tem despertado interesse de organizações não‑governamentais que atuam na defesa dos direitos humanos e da população carcerária. Algumas dessas entidades já manifestaram apoio, oferecendo recursos para a continuidade das oficinas e propondo a publicação dos poemas em antologias.
Especialistas em criminologia ressaltam que projetos culturais dentro de presídios podem contribuir para a redução da reincidência, ao proporcionar aos internos habilidades de expressão e autocuidado emocional.
Entretanto, a comunidade online permanece dividida. Enquanto alguns usuários elogiam a oportunidade de reabilitação, outros questionam a legitimidade de conceder benefícios culturais a indivíduos condenados por crimes graves contra menores.
O caso também reacendeu o debate sobre políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+ no sistema prisional, que ainda carece de programas específicos de apoio psicológico, médico e jurídico.
Perspectivas futuras e desafios
Os coordenadores da UFPB pretendem expandir o projeto para outras unidades prisionais da Paraíba, criando uma rede de oficinas que possa atender a mais detentos trans e travestis. Para isso, será necessário garantir recursos financeiros e apoio institucional contínuo.
Um dos principais desafios identificados é a resistência de alguns agentes penitenciários, que ainda não reconhecem a importância da arte como ferramenta de ressocialização. O diálogo entre gestores prisionais e acadêmicos será crucial para superar essas barreiras.
Além disso, a equipe do projeto busca formas de tornar os poemas acessíveis ao público externo, por meio de publicações digitais e eventos literários, sem violar a privacidade e a segurança dos autores.
Se bem-sucedido, o programa poderá servir de modelo para outras regiões do Brasil, demonstrando que, mesmo em ambientes de restrição, a cultura pode ser um caminho viável para a construção de identidade e dignidade.








