A Polícia Civil do Rio de Janeiro, em parceria com o Ministério Público, realizou nesta quarta‑feira, 28 de outubro, a Operação Dominus, que mira uma rede criminosa ligada ao Comando Vermelho. A ação ocorreu em várias localidades da Baixada Fluminense e na capital, com foco em São Gonçalo, Itaboraí, Duque de Caxias, Recreio dos Bandeirantes e Taquara.
Objetivos e alcance da operação
A iniciativa tem como meta principal desarticular o esquema de monopólio da venda de gás de cozinha em comunidades dominadas pela facção. Foram cumpridos nove mandados de prisão e quarenta e quatro de busca e apreensão, além de bloqueios judiciais que totalizam mais de R$ 350 milhões em ativos.
Os mandados foram executados por equipes da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), do Gaeco/MPRJ, do Departamento‑Geral de Polícia Especializada (DGPE) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE). Cada unidade atuou de forma coordenada, garantindo a captura simultânea de alvos em diferentes municípios.
Como funcionava o monopólio do gás
Segundo o relatório da Polícia Civil, a facção utilizava o controle armado das comunidades para impor regras rígidas na comercialização do gás. Os comerciantes eram obrigados a comprar o produto de fornecedores ligados ao grupo ou a pagar cobranças periódicas, sob risco de retaliações violentas.
Essas exigências eram chamadas internamente de “metas do gás” e representavam um mecanismo de arrecadação sistemática. O dinheiro gerado alimentava a estrutura do tráfico, financiando armas, suborno e expansão territorial.
- Obrigatoriedade de compra de fornecedores controlados;
- Pagamentos mensais de “metas” sob ameaça;
- Uso de violência para impedir concorrência;
- Reinvestimento dos recursos no crime organizado.
O esquema não se limitava ao comércio de gás; ele incluía uma rede de logística que envolvia transporte, armazenamento e distribuição clandestina. Essa cadeia era monitorada por membros da facção que garantiam a aplicação das regras e a punição de desvios.
Principais investigados e suas conexões
Entre os alvos, destaca‑se Adriano Pereira Vasconcelos Junior, conhecido como Junior Playboy, apontado como o articulador central do esquema. Ele mantinha relações estreitas com Edgard Alves de Andrade, o Doca, chefe do Comando Vermelho, e com Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, apelidado de Zeus.
Junior Playboy teria ajudado Doca a fugir do Complexo do Alemão durante a Operação Contenção, em dezembro de 2024, e frequentava o local regularmente. Além disso, participou de eventos pessoais da liderança, como o aniversário da filha de um dos traficantes, reforçando laços de confiança.
As investigações revelaram que o criminoso utilizava empresas de fachada e “laranjas” para movimentar recursos, mascarando a origem ilícita dos valores. Os bens apreendidos incluíam veículos de luxo, imóveis e contas bancárias incompatíveis com a atividade declarada.
Outros membros da rede eram responsáveis por:
- Operações comerciais e distribuição de gás;
- Coleta e repasse das “metas do gás”;
- Intimidação de comerciantes que tentavam atuar de forma independente;
- Gestão de empresas de fachada para lavagem de dinheiro.
Impactos na comunidade e próximos passos
A desmontagem do monopólio traz alívio imediato a milhares de famílias que dependem do gás de cozinha para suas rotinas diárias. A livre concorrência volta a ser uma possibilidade, reduzindo preços e aumentando a oferta em áreas antes controladas.
Entretanto, especialistas alertam que a retirada de um modelo criminoso pode gerar vácuos de poder, favorecendo a emergência de novos grupos ou a reorganização da facção. O acompanhamento das comunidades será fundamental para evitar a retomada de práticas coercitivas.
As autoridades continuam analisando os fluxos financeiros para identificar outros ativos e possíveis cúmplices. O objetivo é ampliar o bloqueio de recursos e garantir que a estrutura econômica da facção seja completamente desmantelada.
O Ministério Público reforçou que novas medidas judiciais podem ser adotadas, incluindo a decretação de medidas cautelares contra empresas suspeitas e a prisão preventiva de outros investigados que ainda não foram detidos.
Com a operação, a Polícia Civil demonstra a capacidade de coordenar ações complexas, envolvendo múltiplas forças‑tarefa e jurisdições diferentes. O sucesso da Operação Dominus serve de exemplo para futuras investigações contra esquemas de monopólio e extorsão praticados por organizações criminosas.
Em síntese, a ação representa um marco no combate ao controle econômico exercido pelo Comando Vermelho sobre um bem essencial. A expectativa é que, ao eliminar as “metas do gás”, a população recupere a liberdade de escolha e o acesso a preços mais justos.








