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IA alimenta desinformação nas eleições legislativas dos EUA

À medida que se aproximam as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, a inteligência artificial (IA) está sendo usada intensivamente nas campanhas eleitorais, gerando um fluxo crescente de desinformação. O fenômeno, apelidado de “slopaganda”, tem sido observado tanto entre candidatos republicanos quanto democratas, embora os apoiadores do ex‑presidente Donald Trump sejam os que mais investem na tecnologia.

O cenário atual da propaganda digital

Pesquisadores do Wesleyan Media Project identificaram até o momento 220 anúncios políticos criados com auxílio de IA. Desses, quase 81% foram financiados por candidatos ou organizações ligadas ao Partido Republicano, 12% por democratas e o restante por grupos independentes. O custo total desses anúncios ultrapassa 137 milhões de dólares, o que equivale a cerca de 753,4 milhões de reais.

Apesar do volume, apenas 27% dos anúncios trazem algum aviso de que foram produzidos com inteligência artificial. Não existe, até hoje, uma regulamentação federal que obrigue a rotulagem desses conteúdos, embora alguns estados tenham adotado restrições específicas.

Casos emblemáticos de uso da IA

Um exemplo chocante ocorreu com Abdul El‑Sayed, candidato democrata ao Senado pelo Michigan. Em um vídeo, ele aparece segurando cartas de um jogo de tabuleiro com mensagens como “Morte aos Estados Unidos” e “Celebre o 11 de Setembro”. Um narrador acrescenta que a destruição de Israel e do Ocidente “não é apenas um jogo para eles”, mas sim uma missão. O conteúdo gerado por IA foi usado para manipular a percepção do público sobre o candidato.

Outro caso raro, mas revelador, mostrou uma foto de família de El‑Sayed criada por IA, na qual ele aparece ao lado de quatro mulheres vestidas com véus. O vídeo, produzido por uma organização ligada ao senador republicano Ted Cruz, trazia um aviso de que o material foi “criado, total ou parcialmente, com o auxílio de inteligência artificial”.

Jon Ossoff, senador democrata da Geórgia, também foi alvo de um anúncio criado por IA que o mostrava em um salão de beleza, acusando-o de “maquiar” seu relatório de prestação de contas. O grupo por trás do anúncio foi o Senate Leadership Fund, que apoia candidatos republicanos ao Senado. Ossoff pediu a retirada do vídeo, embora não houvesse nenhum aviso de uso de IA.

Impacto da desinformação nas eleitores

Uma pesquisa recente realizada para a Fundação AAPC revelou que 73% dos entrevistados consideram o uso de IA em anúncios políticos “inaceitável”. Ainda assim, especialistas apontam que a eficácia da slopaganda pode estar mais ligada à mobilização de eleitores e à arrecadação de fundos do que à influência direta nos resultados das eleições.

O Centro de Política Tecnológica da Universidade de Nova York publicou um relatório indicando que, embora os anúncios de IA possam ser eficazes para captar atenção, eles enfrentam limitações crescentes devido à saturação de informações falsas. O relatório destaca que a sobrecarga cognitiva provocada pela IA pode reduzir o impacto persuasivo desses conteúdos.

  • 81% dos anúncios de IA financiados por republicanos;
  • 12% financiados por democratas;
  • 27% dos anúncios trazem aviso de IA;
  • custo total estimado em 137 milhões de dólares.

Desafios regulatórios e perspectivas futuras

Até o momento, nenhum órgão federal dos EUA exige a rotulagem obrigatória de conteúdo gerado por IA em campanhas eleitorais. Alguns estados, como a Califórnia e Nova York, começaram a discutir legislações que poderiam impor limites ao uso de deepfakes e outras tecnologias de síntese de mídia.

Especialistas em direito digital alertam que a ausência de normas claras favorece a proliferação de anúncios enganosos, dificultando a verificação por parte dos eleitores. A falta de transparência também impede que plataformas de mídia social apliquem políticas de remoção ou sinalização de conteúdo manipulado.

Enquanto isso, os partidos políticos continuam a investir em ferramentas de IA para criar mensagens personalizadas em larga escala. A tendência aponta para uma escalada na produção de anúncios automatizados, especialmente à medida que os custos de geração de mídia sintética diminuem.

Em síntese, a combinação de tecnologia avançada, ausência de regulamentação e alta demanda por conteúdo persuasivo cria um ambiente propício à desinformação. A sociedade civil, os reguladores e as próprias plataformas digitais terão que colaborar para estabelecer padrões que garantam a integridade do processo eleitoral.

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