Em meio ao segundo turno das eleições presidenciais de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva percebeu que sua estratégia de campanha precisava de uma reviravolta. O cenário político, marcado por protestos nas ruas e forte presença digital, mostrou que o eleitorado estava exigindo respostas imediatas.
Desafios internos e a percepção equivocada
Desde o início de seu terceiro mandato, Lula manteve a postura otimista que já havia usado nos dois primeiros mandatos, repetindo a famosa frase “nunca antes na história deste país”. Essa autoconfiança acabou se transformando em um véu que dificultou a leitura correta dos indicadores de popularidade.
Quando as pesquisas apontaram rejeição superior à aprovação, o presidente atribuiu o resultado à falha da comunicação oficial, substituindo o deputado Paulo Pimenta pelo marqueteiro Sidônio Palmeira. A mudança visava melhorar a mensagem, mas não resolveu a raiz do problema: a desconexão entre as promessas de governo e as queixas cotidianas dos eleitores.
Além disso, Lula começou a falar de “dissonância cognitiva” do eleitorado, alegando que a população não compreendia os avanços no emprego e na renda. Essa justificativa, porém, ignorou a percepção crescente de que o custo de vida e a segurança pública permaneciam como dores de cabeça para grande parte da população.
Erros de cálculo nas eleições
Dois equívocos estratégicos marcaram a campanha de Lula antes do primeiro turno. O primeiro foi subestimar a força do antipetismo, acreditando que a vitória sobre Flávio Bolsonaro seria simples. O segundo foi confiar que a mera presença institucional, sem um esforço de campanha ativo, seria suficiente para garantir a vitória.
- Subestimar o antipetismo: Lula considerou que o apoio ao adversário seria marginal, ignorando a mobilização de grupos contrários ao PT.
- Presumir que o cargo presidencial bastaria: a estratégia focou em atos oficiais e negligenciou a necessidade de uma campanha de rua e digital agressiva.
O resultado do primeiro turno foi um choque de realidade: Flávio Bolsonaro ficou em primeiro lugar com vantagem de 2,2 milhões de votos, o menor diferencial desde a redemocratização. Esse cenário forçou o presidente a reconhecer que a campanha precisava de ajustes urgentes.
A virada de campanha: das ruas ao digital
Nas semanas que se seguiram ao primeiro turno, a equipe de Lula adotou uma abordagem mais próxima do eleitorado. Jovens ativistas e representantes da sociedade civil passaram a liderar manifestações nas ruas, enquanto a presença digital foi intensificada com transmissões ao vivo, memes e respostas rápidas a críticas.
Essa mudança de postura incluiu três ações principais:
- Descer do Palácio para as praças, dialogando diretamente com cidadãos.
- Investir em conteúdo nas redes sociais, usando linguagem mais informal e direta.
- Reconhecer publicamente as reclamações sobre o alto custo de vida e a criminalidade, prometendo medidas concretas.
Ao abandonar a narrativa de glorificação de feitos passados, Lula passou a focar na empatia, afirmando que “o povo tem razão de reclamar”. Essa mudança de tom ajudou a reconquistar parte do eleitorado que se sentia abandonado.
Perspectivas para o segundo turno
Com a nova estratégia, a campanha petista conseguiu impedir que Flávio Bolsonaro consolidasse uma liderança absoluta. As pesquisas de acompanhamento indicam um estreitamento da disputa, embora ainda haja volatilidade.
Os analistas apontam que a vitória de Lula dependerá de dois fatores críticos: a capacidade de mobilizar eleitores indecisos nas últimas semanas e a eficácia de contrapor os ataques de desinformação nas redes. A apuração final será o termômetro que mostrará se o presidente acordou a tempo para a realidade ou se o atraso foi decisivo.
Independentemente do resultado, o episódio evidencia a importância de ouvir o eleitorado, adaptar a mensagem e combinar presença física com força digital. A campanha de 2024 pode servir de lição para futuros candidatos que desejam equilibrar governança e disputa eleitoral.








