Nas semanas que antecederam o segundo turno da eleição presidencial, o engajamento nas redes sociais de Nikolas Ferreira (PL-MG) e André Janones (Rede-MG) disparou. Entre 28 de setembro e 11 de outubro, os dois deputados se destacaram como os principais mobilizadores digitais dos campos que apoiam Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
Explosão de interações nas plataformas digitais
O estudo da Casa Galileia, em parceria com o Instituto Democracia em Xeque, revelou um crescimento de 514% nas interações de Nikolas e de 272% nas de Janones. Esse salto reflete a intensificação da disputa política nas redes, impulsionada por campanhas coordenadas e por conteúdos que exploram a polarização eleitoral.
Os números não medem intenção de voto, mas sim a quantidade de curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações nas publicações. Nikolas liderou o ranking de lideranças evangélicas com 50,7 milhões de interações, enquanto Janones ficou em quarto lugar, acumulando 23 milhões.
Os canais de comunicação que marcaram o segundo turno
Dois grupos de WhatsApp se tornaram referência: o “Tropa do Flávio”, comandado por Nikolas, e o “Exército do Lula”, liderado por Janones. Ambos concentraram mensagens de apoio, convocações à votação e chamadas à mobilização espiritual.
Além dos grupos, pastores, pastoras e artistas gospel usaram suas plataformas para influenciar eleitores. Entre os que declararam voto a Lula, destacam‑se o pastor Antônio Carlos Costa e o influente Ed René Kivitz, que vinculou a escolha ao discurso ético‑religioso. Do lado de Flávio, nomes como Talitha Pereira, Teo Hayashi, Cláudio Duarte e Fabiola Melo reforçaram a campanha com mensagens de apoio.
Repertório religioso em mudança
Durante o primeiro turno, a mobilização evangélica focava quase que exclusivamente em pautas religiosas. No segundo turno, o discurso ampliou-se para incluir argumentos sobre democracia, direitos sociais, antipetismo e antibolsonarismo. Essa estratégia buscou atrair eleitores que, embora religiosos, também se preocupam com questões cívicas.
O relatório aponta que, entre as lideranças de esquerda evangélica, Janones concentrou 45,8% das 50,2 milhões de interações registradas, indicando que o discurso mais amplo encontrou ressonância entre os eleitores.
Desinformação e ataques a parlamentares
O estudo também documentou a circulação de informações falsas contra a deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG). Uma imagem atribuída a ela, divulgada por Nikolas, sugeria que a parlamentar defendia o fechamento de igrejas – o que foi desmentido como montagem.
Outra publicação, proveniente do perfil Assembleianos, alegava que Ana Elisa apoiava a violência contra evangélicos. O conteúdo gerou ameaças e mobilizou defensores como Benedita da Silva, Eliziane Gama e o próprio Janones, que se pronunciaram em sua defesa.
Esses episódios foram classificados como parte de uma narrativa que retrata a esquerda como ameaça às igrejas, ampliando a hostilidade nas redes evangélicas.
Simbolismo religioso e batalha espiritual
Influenciadores evangélicos alinhados à direita associaram ritos e símbolos de religiões afro‑brasileiras a supostas ameaças espirituais contra Flávio Bolsonaro. Expressões como “macumba contra Flávio” foram usadas para transformar a disputa eleitoral em uma guerra espiritual, convocando seguidores a orar e a se mobilizar politicamente.
Essas estratégias reforçaram a ideia de que a eleição não era apenas um pleito democrático, mas um confronto entre forças espirituais, intensificando a polarização entre os eleitores.
Impacto nas campanhas e perspectivas futuras
O aumento expressivo de engajamento digital indica que as campanhas eleitorais estão cada vez mais dependentes das redes sociais para alcançar eleitores. A capacidade de mobilizar milhões de interações em poucos dias demonstra o poder de influenciadores religiosos na formação de opinião.
Para os candidatos, entender esses mecanismos será crucial nas próximas disputas, já que o apoio de lideranças evangélicas pode transformar grupos de nicho em blocos eleitorais significativos.
Observadores apontam que a combinação de discurso religioso, argumentos cívicos e desinformação cria um cenário complexo, onde a veracidade das informações e a ética na comunicação se tornam desafios centrais para a democracia.
Em síntese, o duelo digital entre Nikolas Ferreira e André Janones ilustrou como a religião, a política e a tecnologia convergem para moldar o comportamento eleitoral no Brasil contemporâneo.








