Um tribunal no Quênia declarou culpado, nesta segunda‑feira, 19 de setembro, o autoproclamado pastor Paul Nthenge Mackenzie e seus cúmplices, por ordenarem um jejum que resultou na morte de 191 pessoas, em sua maioria crianças. O crime ocorreu na comunidade costeira de Malindi, onde a seita manipulava seguidores com promessas de “conhecer Jesus” por meio da fome extrema.
Contexto da tragédia
A seita, conhecida popularmente como “massacre da floresta de Shakahola”, surgiu em 2022 quando Mackenzie, antes taxista, começou a atrair fiéis com discursos apocalípticos. Ele afirmava que a salvação só seria alcançada mediante a prática de jejuns prolongados, chegando ao ponto de negar qualquer ingestão de água ou alimentos.
Os seguidores, muitos deles crianças e adolescentes, foram isolados em áreas remotas da floresta, onde eram monitorados por vigilantes que impunham punições severas a quem tentasse romper o jejum. A estratégia de controle incluía ameaças de violência, isolamento social e a promessa de recompensas espirituais após a morte.
Conforme as investigações avançaram, ficou evidente que havia uma hierarquia de morte: primeiro crianças, depois adolescentes, mulheres e, por fim, homens. Essa ordem refletia a lógica perversa da liderança, que buscava criar um exemplo de sacrifício para atrair novos adeptos.
- Início da seita: 2022
- Local principal: Floresta de Shakahola, Malindi
- Número de vítimas confirmadas: 191 (até setembro de 2024)
- Perfil das vítimas: 70% crianças, 20% mulheres, 10% homens
Investigação e julgamento
O caso ganhou destaque internacional quando, em abril de 2023, um grupo de defesa dos direitos humanos localizou alguns adeptos ainda vivos e alertou as autoridades. A operação de resgate resultou na prisão de Mackenzie e de vários colaboradores, que foram mantidos sob custódia enquanto as autoridades escavavam os túmulos na floresta.
As autópsias realizadas revelaram que a maioria das mortes ocorreu por inanição, mas também foram identificados casos de estrangulamento, espancamento e asfixia. Esses achados foram fundamentais para a acusação, que apresentou um dossiê detalhado contendo mais de 400 corpos desenterrados nos últimos três anos.
No tribunal, o Ministério Público argumentou que Mackenzie “iniciou e liderou” o jejum extremo, configurando uma “hierarquia estruturada de morte”. A defesa, por sua vez, tentou alegar inocência, afirmando que os seguidores teriam participado voluntariamente.
Após longas sessões de depoimentos, o júri concluiu que a prova era incontestável e, em 19 de setembro de 2024, condenou Mackenzie e seus cúmplices a penas de prisão perpétua, além de multas significativas para as famílias das vítimas.
Repercussões e lições
A condenação provocou uma onda de alívio entre os familiares das vítimas, que há anos aguardavam justiça. Organizações não‑governamentais aproveitaram o momento para reforçar campanhas de prevenção contra cultos e seitas que utilizam a religião como arma de manipulação.
Especialistas em psicologia social destacam que a vulnerabilidade econômica e a falta de acesso a educação são fatores que facilitam a adesão a grupos extremistas. No Quênia, o governo anunciou a criação de um programa nacional de apoio psicológico para sobreviventes de cultos.
Além disso, o caso reforçou a necessidade de uma legislação mais rigorosa para regular lideranças religiosas, com propostas de leis que exijam registro oficial e auditoria das atividades de grupos religiosos.
O julgamento também serviu de alerta para a comunidade internacional, que agora acompanha mais de perto situações semelhantes em outras regiões, como a América Latina e o Sudeste Asiático, onde relatos de jejuns forçados vêm surgindo.
Em síntese, a condenação de Mackenzie representa não apenas a punição de um crime hediondo, mas também um marco na luta contra a exploração religiosa e a violência de massa. O caso deverá permanecer como referência para políticas públicas de proteção à infância e ao direito à vida.








