Em meio ao inverno de 2026, agricultores palestinos de Gaza enfrentam a destruição quase total de seus olivais, consequência direta das operações militares israelenses que se estenderam ao campo agrícola. As áreas antes férteis, localizadas principalmente na região central da Faixa, foram varridas por tratores de combate, deixando milhares de árvores abatidas e colheitas comprometidas.
A devastação dos olivais
Haidar Abu Middain, de 60 anos, percorre o que restou de seu pomar familiar, antes composto por 900 dunums de terra – cerca de 90 hectares – repleto de oliveiras carregadas de frutos maduros. Hoje, apenas duas‑a‑três dezenas de árvores permanecem em pé, incapazes de gerar mais que dois barris de azeite, quantidade insuficiente até para atender às necessidades básicas da própria família.
Antes do conflito, a produção anual girava em torno de 1.500 toneladas de azeitonas, que eram transformadas em aproximadamente 900 barris de 16 litros de azeite. Esse volume sustentava a dieta local e ainda permitia a exportação de um pequeno excedente para o mercado israelense.
Com a destruição dos pomares, a previsão oficial aponta para uma colheita de apenas 5 mil toneladas de azeitonas, contra as 40 mil habituais, reduzindo a produção de azeite para cerca de 700 toneladas – menos de 15 % do que era gerado nos anos anteriores.
Impactos na produção de azeite
Os mercados de Gaza, que costumavam estar repletos de cestos de azeitonas e barris de azeite recém‑extraído, agora apresentam escassez quase total. O pouco produto que chega ao comércio está sendo vendido a preços três vezes superiores ao praticado antes da guerra, chegando a quase US$ 500 por barril, preço inacessível para a maioria das famílias.
Segundo Imad al‑Ajrami, de 33 anos, cliente de um mercado em Deir al‑Balah, o aumento de preço coloca o azeite fora do alcance da população, que já lida com racionamento de alimentos e energia.
As autoridades locais informam que apenas sete prensas de azeite permanecem operacionais, número muito inferior às cerca de 40 que funcionavam antes do conflito. Essas poucas unidades operam de forma intermitente, muitas vezes com falhas mecânicas que atrasam ainda mais a produção.
- Antes da guerra: 40 prensas em operação;
- Após a guerra: 7 prensas funcionando;
- Capacidade reduzida para cerca de 700 toneladas de azeite;
- Preço atual: ~US$ 500 por barril.
Fawaz Zidan, que mantém sua prensa aberta em Deir al‑Balah, relata que a falta de peças de reposição e a escassez de energia elétrica comprometem a eficiência das máquinas, prolongando o tempo necessário para transformar azeitonas em azeite.
A resistência dos agricultores
Mesmo diante da devastação, alguns agricultores ainda encontram maneiras de colher o que resta. Em Deir al‑Balah, considerada “zona segura” pelas forças israelenses, Khalil Mansi e sua família continuam a recolher azeitonas verdes, utilizando panos brancos estendidos no chão para capturar os frutos que caem dos galhos.
Meninos descalços sobem em escadas improvisadas para alcançar os ramos mais altos, enquanto meninas se encarregam de separar as azeitonas das folhas e gravetos. O trabalho, embora reduzido, ainda gera um som ritmado que ecoa pelos campos, lembrando tempos de abundância.
Ahmed Khader, de 38 anos, que antes garantia emprego por dois a três meses durante a temporada, agora consegue apenas uma diária. Ele destaca a importância de qualquer renda para sustentar seus filhos, afirmando que “precisamos garantir o pão de cada dia, mesmo que seja pouco”.
A situação revela não apenas a fragilidade da cadeia produtiva de azeite em Gaza, mas também a resiliência de uma comunidade que luta para preservar sua tradição agrícola frente a um cenário de conflito e escassez.
Enquanto o futuro da agricultura palestina permanece incerto, a esperança de reconstruir os olivais e retomar a produção em escala suficiente para atender à população ainda alimenta o espírito dos agricultores, que continuam a semear, mesmo nas condições mais adversas.








