A nova estratégia de Vladimir Putin, divulgada em setembro de 2024, tem como objetivo tornar impossível a vida nas cidades ucranianas, sobretudo em Kiev, ao intensificar ataques contra civis e infraestruturas essenciais. Nos últimos dias, os bombardeios ocorreram quase diariamente, atingindo escolas, hospitais, centros comerciais e pontes estratégicas. O foco dos ataques coincide com a chegada do inverno rigoroso, que pode agravar ainda mais a crise humanitária.
Intensificação dos ataques a alvos civis
Nas semanas que antecederam o início de outubro, a Rússia ampliou o uso de drones e mísseis de precisão contra alvos que, segundo Moscou, teriam finalidade militar. Na prática, os alvos incluíram duas lojas próximas a Kiev em 30 de setembro, uma escola no distrito de Solomianskyi no dia seguinte, e um centro comercial em Odessa. Em 8 de outubro, um drone atingiu o terreno de uma escola e jardim de infância no distrito de Bucha, provocando pânico entre pais e professores.
O ministro da Defesa russo justificou os bombardeios alegando que as edificações civis eram usadas para produção ou armazenamento de armamento. Contudo, o comissário de Direitos Humanos da Ucrânia, Dmytro Lubinets, registrou que 15.280 civis foram mortos ou feridos entre janeiro e agosto de 2024 – um aumento de 55% em relação ao mesmo período do ano anterior.
- 30/09 – duas lojas próximas a Kiev danificadas por drones;
- 01/10 – escola no distrito de Solomianskyi atingida;
- 08/10 – escola e jardim de infância em Bucha atacados;
- Outros incidentes – hospitais, hotéis e centros de dados foram alvos de mísseis.
Esses episódios demonstram uma mudança de foco: antes, os bombardeios visavam principalmente instalações militares; agora, a estratégia parece ser criar um clima de medo constante, forçando a população a abandonar áreas urbanas.
Ameaça às pontes sobre o rio Dnipro
Um dos alvos mais críticos tem sido as pontes que cruzam o rio Dnipro, considerada a “artéria vital” de Kiev. As pontes sustentam não só o tráfego de veículos, mas também parte do sistema de metrô e as principais rotas de abastecimento de energia e água. Ao enfraquecer ou fechar essas estruturas, o exército russo procura interromper o fluxo diário de milhões de habitantes entre as margens direita e esquerda do rio.
Embora os drones russos não possuam potência suficiente para destruir completamente as pontes, os ataques recorrentes têm como objetivo forçar seu fechamento temporário. O horário dos bombardeios – frequentemente durante o pico de tráfego matinal – indica uma intenção deliberada de maximizar o caos e impedir o deslocamento de civis e suprimentos essenciais.
Peter Dickinson, analista do centro de estudos Conselho do Atlântico, destaca que a ausência de túneis sob o Dnipro torna as pontes ainda mais vulneráveis a esse tipo de pressão. “Sem as pontes, a cidade perde sua capacidade de movimentação, o que pode levar a racionamento de alimentos, água e energia”, alerta o especialista.
Impactos na população e a resposta internacional
O efeito imediato desses ataques tem sido a migração forçada de famílias de Kiev para áreas rurais ou para o exterior. Soldados ucranianos na linha de frente agora ligam para casa perguntando se seus entes queridos ainda estão seguros, invertendo o padrão tradicional de comunicação. Esse deslocamento massivo eleva o risco de crises sanitárias e de abastecimento nas regiões de acolhimento.
O presidente Volodymyr Zelensky, em entrevista ao Financial Times, afirmou que “os russos não conseguem nos ocupar, então recorrem a ataques em massa para causar mortes em massa”. Segundo fontes próximas a Putin, o presidente russo declarou em setembro que “agora não há regras”, indicando uma postura de guerra total contra a população civil.
Organizações internacionais, como a ONU e a Anistia Internacional, condenaram os bombardeios e solicitaram a abertura de corredores humanitários. Enquanto isso, países ocidentais aumentaram o apoio militar e humanitário à Ucrânia, enviando sistemas de defesa aérea avançados e kits de energia portátil para mitigar os efeitos dos cortes de energia.
Especialistas em direito internacional alertam que a estratégia de Putin pode configurar crimes de guerra, já que o objetivo declarado é “impossibilitar a vida dos civis ao máximo possível, particularmente com a chegada do inverno”. A comunidade global acompanha de perto a evolução desses ataques, temendo que a escalada possa se transformar em uma catástrofe humanitária ainda maior.








